Victor Hugo de Souza Santos, de 35 anos, conhecido artisticamente como Dooda Wesker, transformou o crochê herdado da família em sua marca registrada como drag queen na região de Presidente Prudente (SP). As peças, feitas inteiramente à mão, levam de 20 a 30 dias para serem produzidas e são usadas em suas performances.
Origem do crochê na família
A habilidade vem de três gerações: a bisavó fazia rendas de bilro, a avó bordava e costurava, e a mãe ensinou-lhe o amigurumi. “Minha bisavó fazia rendas de bilro e minha avó materna bordava, costurava para fora e fazia bordados também, ponto-cruz. Eu acompanhava isso nas férias escolares”, relembra Victor ao g1. Aos 17 anos, aprendeu com a mãe a fazer pelúcias de crochê, que mais tarde evoluíram para o vestuário.
Nascimento da drag crocheteira
Em 2017, um amigo que trabalhava em uma casa noturna o desafiou a se apresentar como drag queen. “Achei loucura, um desafio grande, e topei. A partir dali, comecei a frequentar ainda mais a boate, para ver o que as drags locais estavam fazendo, vestindo”, conta. Foi então que decidiu mesclar o artesanato com a performance, criando a persona Dooda Wesker.
Além de hobby, o crochê tornou-se uma renda extra para o operador de caixa. Os amigurumis levam de três a quatro horas quando tem o dia livre, mas o prazo pode chegar a 15 dias devido à rotina de trabalho. Já as roupas para as apresentações exigem dedicação de 20 a 30 dias.
Visibilidade e reconhecimento
Victor passou a divulgar seu trabalho nas redes sociais, combinando os dois lados de sua vida. “Comecei a postar os meus crochês e mostrar como é viver de artesanato no interior de SP, se a gente tem dificuldade da aceitação da família. A drag me proporcionou ter essa visibilidade”, afirma.
Em junho, Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, ele foi convidado pelo Sesc Guarulhos (SP) para um bate-papo com pessoas acima de 50 anos. “Hoje, o pessoal me conhece como a drag queen crocheteira. E essa visibilidade, esse reconhecimento me faz querer continuar ainda mais”, celebra. “Eu fui preparado com um roteiro para chegar e falar um pouco sobre a minha história. Cheguei lá e ‘caiu por terra’, porque eles começaram a perguntar. Foi um projeto bem interessante.”
Apoio familiar e representatividade
Natural de Mirante do Paranapanema, cidade com cerca de 16 mil habitantes, Victor é caçula de três filhos. “Graças a Deus tive e tenho uma família muito apoiadora, que, em todas as minhas opiniões, todas as minhas decisões, me incentivou”, diz. Ele temia a reação do pai, policial militar, mas ao contar, ouviu: “Tudo bem, você é meu filho, te amo do mesmo jeito, você vai ter o meu total apoio. Só não quero você fazendo coisas erradas”.
Victor ressalta a importância de pessoas LGBTQIAPN+ ocuparem espaços antes dominados por heterossexuais. “Nos anos 2000, os LGBT's na mídia eram tratados como chacota. Hoje a gente vê eles ganharem mais notoriedade, nas novelas, tendo papéis importantes, cargos importantíssimos, seja na política, na saúde... cantoras dominando os palcos”, cita. “Acho que essa é a importância de a gente mostrar para o mundo, principalmente na cidade onde a gente reside. Isso tem muito peso, é muito importante para as pessoas saberem quem nós somos, que a gente é igual a todo mundo”, finaliza.



