Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos; velório reúne familiares e artistas
Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos; velório reúne fãs

O dramaturgo Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas icônicas como "Pantanal" e "Terra Nostra", morreu nesta terça-feira (7) em São Paulo, aos 95 anos, devido a complicações de insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor). O corpo está sendo velado até as 21h no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP.

Velório emociona familiares e amigos

Parentes e amigos de Benedito Ruy Barbosa compareceram ao velório para prestar homenagens e relembraram momentos de convivência, destacando o legado deixado por um dos maiores escritores da TV brasileira. A filha Edilene Barbosa contou que o escritor permaneceu lúcido até os últimos dias, apesar do agravamento de um problema renal e de sucessivas internações por infecções urinárias. "Não tem o que fazer, um transplante ele não suportaria", afirmou. Ela lembrou que "Pantanal" e "Meu Pedacinho de Chão" estão entre suas obras preferidas e recordou a participação da família na primeira versão da novela e, décadas depois, no remake.

A neta Paula Barbosa, atriz que integrou o elenco do remake de "Pantanal", chorou ao falar do avô. Ela relembrou o lado afetuoso e bem-humorado de Benedito, dizendo que ele a ensinou a dirigir, fazia pedidos inusitados do dia a dia e, no último aniversário, chegou a compor uma música repleta de palavrões para divertir o bisneto de 8 anos.

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Artistas prestam homenagens

A atriz Cristiana Oliveira, intérprete de Juma Marruá na primeira versão de "Pantanal", afirmou que Benedito continuou a chamá-la pelo nome da personagem após o fim da novela. Ela também contou que o autor insistiu para que ela interpretasse Juma, papel que acabou marcando sua carreira, e disse que se considera uma "embaixadora do Pantanal" por causa da novela.

O filho Ruy Maurício Barbosa lembrou a paixão do pai pelo futebol. Segundo ele, Benedito era "mais são-paulino do que torcedor da seleção", vivia os jogos com intensidade e era um torcedor explosivo. Também relembrou uma história que durante anos julgou ser exagero: a de que o pai havia presenciado a chegada de Pelé à Vila Belmiro. Após confirmar o relato com um jornalista que também conhecia o episódio, disse que telefonou ao pai para pedir desculpas por ter duvidado dele.

Gigante da televisão brasileira

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro, exploram a diversidade cultural, com interesse especial na imigração italiana, e apresentam amores intensos. Seu legado inclui tramas icônicas como "Meu Pedacinho de Chão" (1971), "Pantanal" (1990), "O Rei do Gado" (1996) e "Terra Nostra" (1999), marcadas por protagonistas de "bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos", como o próprio definia.

O mais velho entre cinco irmãos, Ruy Barbosa nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos. Com a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ao longo da juventude, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal "O Estado de S. Paulo". O gosto pela escrita levou Benedito a criar seu primeiro romance, "Fogo Frio", que foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, o começo de sua trajetória como roteirista.

Trajetória na TV

Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com "Somos Todos Irmãos", na TV Tupi. Nos anos seguintes, passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu "Meu Pedacinho de Chão", novela produzida por uma parceria da Cultura com a Globo e exibida por ambas. Cinco anos depois, assinou com a Globo, onde deu início a uma sequência de sucessos na faixa das 18h. Nessa época, adaptou o romance de Ribeiro Couto em "Cabocla" (1979). Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, Benedito escreveu "Pantanal", que inovou ao utilizar locações externas e explorar a cultura e os mistérios do bioma brasileiro.

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Com o sucesso, retornou à Globo para escrever "Renascer" (1993), trama ambientada no interior baiano e marcada pelo duelo de gerações do coronel José Inocêncio. Ambas seriam refilmadas décadas depois, escritas por seu neto, Bruno Luperi. Com "O Rei do Gado" (1996), Benedito abordou a rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, enquanto discutia temas como a posse de terra e a reforma agrária. Já em "Terra Nostra" (1999), retratou o drama dos italianos Matteo e Giuliana, separados ao chegarem ao Brasil no início do século XX.

Revisitação de obras e última novela

Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras. Em 2006 e 2014, assinou as refilmagens de "Sinhá Moça" e "Meu Pedacinho de Chão". Na versão cheia de cores da segunda obra, declarou que finalmente conseguiu colocar no ar ideias que a censura havia barrado na primeira versão, durante a ditadura militar. Em 2016, escreveu "Velho Chico", novela ambientada na cidade fictícia de Grotas do São Francisco, no sertão nordestino. A novela trouxe um embate de gerações e a disputa por terra e poder no interior do Brasil. "Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", definiu Benedito Ruy Barbosa em depoimento ao Memória Globo.