O Festival de Parintins, no Amazonas, inspira turistas a levar lembranças para casa. Entre os itens mais procurados estão as miniaturas dos bois Caprichoso e Garantido, conhecidas carinhosamente como “boizinhos”. Elas são feitas em barracões improvisados, quintais e oficinas por artesãos locais, como Júlio César Costa da Silva, que há 34 anos transforma o amor pelo boi-bumbá em fonte de renda. Neste ano, Júlio abriu pela primeira vez uma loja própria para vender diretamente ao público as peças que produz. Durante décadas, o artesão confeccionou os tradicionais boizinhos para revendedores que os vendiam a preços mais altos.
Dos galpões dos bois ao negócio próprio
A trajetória de Júlio no Festival começou nos anos 1980. Em 1987, ele entrou para a equipe do Boi Caprichoso como escultor e ficou por oito anos, período marcado por conquistas do boi azul e branco. Depois, trabalhou por 19 anos no Boi Garantido, na produção artística do boi vermelho e branco. Em 2017, após sofrer um infarto, deixou a rotina intensa dos galpões e passou a produzir peças para terceiros. A mudança trouxe desânimo. “Eu só estava trabalhando para os outros e vendo os outros terem condições de vida melhores, enquanto eu ia ficando para trás”, relembrou.
O incentivo para recomeçar veio do filho, Rodrigo Amazonas, que o encorajou a investir novamente no próprio trabalho. “Ele me deu força. Perguntou se eu não queria trabalhar com os boizinhos, porque é um material mais leve, que não exige tanto esforço. Aí a gente começou”, contou. Neste festival, após alguns anos de produção independente, a família conseguiu um ponto comercial para vender diretamente ao público. “Já demos o primeiro passo. Agora vamos lutar para manter”, afirmou.
Como nascem os boizinhos?
Cada boizinho é feito de forma artesanal, em várias etapas que não podem ser interrompidas. Parte da matéria-prima vem do interior do Amazonas, como o cipó e o molongó, usados nos chifres. O molongó é uma árvore amazônica com madeira leve utilizada em artesanato. A planta tem tronco fino, alto e leve e é encontrada em florestas alagadas da região amazônica. A produção começa pela armação, que funciona como o esqueleto do boizinho. Depois, são feitas a cabeça e os chifres. As peças são encaixadas, recebem espuma, revestimento em tecido, passam pela costura, pintura e acabamento final. “É uma linha de produção. Se você começa, tem que ir até o fim. Se interromper, aquelas peças que ficaram no caminho já não seguem mais”, explicou.
Um pedaço de Parintins na bagagem
Durante o Festival de Parintins, ver turistas do Brasil e do exterior encantados com os boizinhos é uma das maiores recompensas para Júlio. “Para mim, é gratificante ver a pessoa feliz, elogiando o trabalho. Não adianta ter muita coisa e ser mal feita. Tem que ser uma coisa bem feita, para a pessoa olhar e se impactar”, disse. Mais que lembranças, as miniaturas representam a dedicação de artesãos que mantêm viva a cultura do boi-bumbá fora da arena. “É um orgulho só. Uma gratificação muito grande. Primeiro a Deus, e tocar a bola para frente”, concluiu.



