IA e a hipersuasão: como a tecnologia ameaça nossa capacidade de distinguir o verdadeiro do falso
IA e hipersuasão: ameaça à nossa capacidade de julgar a verdade

O filósofo italiano Luciano Floridi cunhou o termo 'hipersuasão' para descrever como a inteligência artificial (IA) combina grandes volumes de dados, personalização em escala e aprendizado contínuo para adaptar mensagens a cada indivíduo, influenciando decisões sem que percebamos. Diferentemente da publicidade tradicional, que se dirige a multidões, a hipersuasão fala de forma única com cada pessoa, tornando a mentira mais sedutora do que a verdade complexa.

Como a IA facilita a mentira convincente

Mentir bem sempre exigiu talento para construir narrativas convincentes, mas a IA democratiza essa capacidade. Qualquer um pode produzir, em segundos, conteúdos e argumentos aparentemente críveis. Mais do que facilitar a criação de conteúdos falsos, a tecnologia os torna extremamente persuasivos, explorando atalhos cognitivos do cérebro humano, como a tendência a confiar em informações repetidas, apresentadas de forma fluida e vindas de fontes percebidas como neutras ou competentes.

Estudos comprovam o poder da IA na desinformação

Pesquisadores do MIT Media Lab, liderados por Valdemar Danry, verificaram que explicações enganosas produzidas por IA aumentaram a crença em informações falsas mais do que explicações corretas fortaleceram a crença em fatos verdadeiros. Os autores associaram esse resultado ao viés de autoridade e ao efeito de 'verdade ilusória', onde a repetição faz uma informação parecer mais verdadeira. O estudo também sugere que a simples presença de uma explicação atribuída à IA pode levar as pessoas a delegar parte de seu julgamento à tecnologia, reduzindo a avaliação crítica.

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Outro estudo, liderado por Jiawei Zhou, do Georgia Institute of Technology, mostrou que a desinformação gerada por IA apresenta características linguísticas diferentes da criada por humanos: os textos sintéticos tendem a acrescentar detalhes, reconhecer incertezas aparentes, criar conclusões equilibradas e adotar um tom pessoal. Em vez da desinformação caricata e alarmista que aprendemos a identificar, a IA se vale de sinais que associamos à credibilidade.

O risco de padronizar critérios de verdade

Quem controla os modelos de IA exerce enorme influência sobre quais narrativas se tornam mais visíveis, quais referências culturais ganham legitimidade e até quais versões da realidade passam a parecer naturais. Essa é uma disputa pelo poder de definir o que será considerado plausível. Floridi defende que, para enfrentar a hipersuasão, é necessário fortalecer a privacidade, ampliar a pluralidade de fontes, criar regulações compatíveis com valores humanos e investir em letramento digital.

Além disso, é preciso duvidar de conteúdos excessivamente convincentes, comparar versões, buscar fontes independentes e incorporar a educação midiática e digital como competência básica da cidadania. Se a IA já consegue uniformizar nossa linguagem, agora pode padronizar nossos critérios de verdade. Antes que a mentira se torne apenas um produto bem acabado, precisamos decidir que a capacidade de julgar continuará sendo responsabilidade nossa.

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