O avanço das fontes de energia limpa, como solar e eólica, não é suficiente para garantir a segurança do setor elétrico brasileiro, alerta o especialista em energia, João Carlos Mello. Segundo ele, a intermitência dessas fontes impõe desafios à estabilidade do sistema, que precisa de investimentos em armazenamento e transmissão para evitar apagões.
Desafios da intermitência
Mello explica que a geração solar e eólica depende de condições climáticas, o que torna a oferta de energia variável. "Sem mecanismos de armazenamento, como baterias ou hidrelétricas reversíveis, o sistema fica vulnerável a picos de demanda ou quedas na geração", afirma. Dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) mostram que, em 2023, a geração eólica e solar representou 18% da matriz elétrica, mas sua contribuição efetiva para a capacidade firme é limitada.
O especialista cita o exemplo de agosto de 2023, quando uma onda de calor elevou o consumo de energia, mas a geração eólica caiu drasticamente, forçando o acionamento de usinas térmicas. "Isso demonstra que a transição energética precisa ser planejada com cuidado", completa.
Investimentos necessários
Para garantir a segurança do sistema, Mello defende investimentos em linhas de transmissão que conectem regiões com diferentes padrões de vento e sol, além de sistemas de armazenamento em larga escala. "O Brasil tem potencial para liderar a energia limpa, mas precisa de políticas públicas que incentivem essas tecnologias", diz. Estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que serão necessários R$ 50 bilhões em investimentos até 2030 para integrar as renováveis de forma segura.
Outro ponto é a modernização das regras do setor elétrico, que ainda privilegiam fontes convencionais. "O marco legal precisa evoluir para valorizar a flexibilidade e o armazenamento, não apenas a geração em si", argumenta Mello. A falta de regulamentação para baterias em escala de rede é um dos gargalos.
Impacto para o consumidor
A insegurança do setor elétrico pode ter reflexos na conta de luz. Com o acionamento frequente de térmicas, os custos aumentam, e o consumidor paga a conta. "A bandeira tarifária vermelha patamar 2, que vigorou em setembro de 2023, foi consequência direta da falta de reserva de energia", lembra Mello. Para ele, a solução passa por diversificar a matriz e investir em fontes despacháveis, como biomassa e pequenas centrais hidrelétricas.
Por fim, o especialista ressalta que a segurança energética não depende apenas da geração, mas de todo o ecossistema. "Energia limpa é importante, mas não adianta ter painéis solares se não houver como armazenar ou transmitir essa energia", conclui.



