Pesquisadores do Amapá lançaram o programa Ciência na Cuia, que leva trabalhos das universidades públicas para espaços descontraídos, como bares. O objetivo é democratizar o acesso à ciência e aproximar a população das pesquisas acadêmicas. A primeira edição ocorreu no domingo (7), em um bar na Zona Sul de Macapá, com a participação de cinco pesquisadores que apresentaram estudos de diferentes áreas.
Inspiração internacional com toque regional
O Ciência na Cuia foi inspirado em um projeto internacional que leva pesquisa para bares e espaços públicos. No Amapá, ganhou versão regional com a simbologia da cuia, objeto indígena usado para o consumo de bebidas. A iniciativa também atende exigências do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de agências de fomento, que pedem divulgação científica em linguagem popular.
Democratização do conhecimento
José Carlos Tavares, coordenador do laboratório de fármacos da Universidade Federal do Amapá (Unifap), destaca que muitas pessoas desconhecem as pesquisas feitas nas universidades e o impacto delas no dia a dia. “A ideia é deixar a ciência mais acessível, porque muitas vezes ficamos dentro do laboratório sem divulgar os tipos de pesquisa. No laboratório de fármacos, por exemplo, temos estudos interessantes que impactam diretamente a vida das pessoas. Estamos desenvolvendo projetos na área de diabetes e novos medicamentos para tratamento de feridas, e a população não sabe disso”, explicou. Ele ressalta que o programa também mostra como o dinheiro público é usado nos laboratórios. “Isso é importante porque usamos dinheiro público, e a população precisa conhecer o que estamos estudando e o que está surgindo em termos de pesquisa”, afirmou Tavares.
Primeira edição e próximos passos
Na primeira edição, foram apresentados trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado. O público pôde tirar dúvidas e interagir com os pesquisadores. A previsão é realizar mais duas edições em 2026, incluindo feiras e outros espaços públicos. Pesquisadores estrangeiros também devem participar dos debates.
Pesquisa com plantas amazônicas
Um dos trabalhos desenvolvidos no laboratório foi um medicamento à base de jucá, planta amazônica conhecida cientificamente como Libidibia ferrea, para tratar o pé diabético. A pesquisa mostrou que o jucá aumenta o fluxo de sangue na área ferida, o que ajuda a irrigar a região e acelerar o processo de cura. As pesquisas começaram em 2024 e passaram por diferentes etapas da fase pré-clínica. A pomada feita com jucá já concluiu todos os testes necessários e agora será submetida à avaliação da Anvisa. Em um dos casos acompanhados pela equipe, um paciente que usou spray à base de jucá apresentou melhora significativa. O quadro era considerado irreversível e havia indicação de amputação, mas o tratamento evitou a perda do membro. A expectativa é que o produto seja aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e passe a ser oferecido no Sistema Único de Saúde (SUS) como alternativa mais barata e eficaz.
Outros produtos em desenvolvimento
Além do jucá, o laboratório da Unifap também desenvolve produtos com óleos de alecrim e larício. A previsão é que esses medicamentos sejam testados ainda este ano em pacientes atendidos na Unidade Básica de Saúde (UBS) da universidade.



