Museu do Ipiranga terá escaneamento 3D similar ao do Coliseu de Roma
Museu do Ipiranga terá escaneamento 3D similar ao do Coliseu

O Museu do Ipiranga, em São Paulo, será alvo de um projeto inovador de conservação que utiliza a mesma tecnologia de escaneamento a laser tridimensional empregada no monitoramento do Coliseu de Roma, na Itália. A iniciativa, prevista para julho, foi apresentada pela professora Beatriz Kuhl, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), durante a Fapesp Week Londres, realizada entre 2 e 4 de junho na capital britânica.

Escaneamento completo do edifício histórico

O projeto contempla o escaneamento integral do museu, tanto interna quanto externamente. O objetivo principal é analisar o comportamento da edificação após as recentes obras de restauração, estabelecer um sistema de monitoramento e criar um modelo de gestão da informação para conservação preventiva baseado na metodologia Historic Building Information Modeling (HBIM). Esse processo de modelagem 3D para edifícios históricos permite integrar dados sobre características físicas, sistemas e outros elementos em um ambiente digital tridimensional.

“A ideia é alimentar um sistema HBIM a partir de uma área piloto do museu para permitir a gestão da informação com fins de conservação preventiva”, explicou Beatriz Kuhl à Agência Fapesp.

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Após uma década fechado para reformas, o museu, construído entre 1885 e 1890, reabriu ao público em setembro de 2022.

Parceria com universidade italiana

A execução técnica do escaneamento ficará a cargo do laboratório Diaprem, da Universidade de Ferrara, na Itália, mesma equipe que recentemente concluiu o escaneamento do Coliseu e que já havia realizado um levantamento do Museu do Ipiranga antes das obras. A parceria entre o grupo italiano, pesquisadores da FAU-USP e do Centro de Preservação Cultural da USP (CPC-USP) é antiga: a mesma equipe escaneou o edifício da FAU-USP, projetado por Vilanova Artigas, e agora retorna ao Ipiranga para registrar o estado atual do monumento após a restauração.

A continuidade da parceria é estratégica. “Para ter dados comparáveis, é fundamental usar a mesma metodologia e os mesmos pontos de referência”, afirmou Beatriz. “Dependendo de como o escaneamento é feito, pode haver muitas imprecisões. Se bem planejado e consistente, os resultados são muito precisos.”

Equipamento portátil de alta precisão

O equipamento, portátil e do tamanho de uma caixa de sapatos, emite raios laser que mapeiam com precisão milimétrica as coordenadas geométricas de cada ponto das superfícies internas e externas do edifício. Além da geometria, o escâner capta o dado de refletância: a porcentagem da luz emitida que retorna ao sensor varia conforme o material, seu grau de umidade ou a presença de mofo.

Essa variação permite identificar anomalias. “Ao detectar um ponto diferente do vizinho, quando deveria ser igual, é possível questionar se aquilo indica alguma manifestação patológica”, explicou Beatriz. Os dados formam uma nuvem de pontos densa, útil tanto para a memória geométrica do edifício quanto para o diagnóstico de problemas estruturais e de conservação.

O escaneamento será realizado gradualmente para não interferir no funcionamento do museu. “O escâner funcionará dentro e fora do museu, e as atividades serão planejadas para não alterar a rotina. O museu não será fechado”, garantiu a pesquisadora.

Conservação preventiva como foco

O projeto do Museu do Ipiranga insere-se em uma linha de pesquisa mais ampla que Beatriz Kuhl desenvolve há anos na FAU-USP, voltada à conservação preventiva, ou seja, antecipar e evitar problemas antes que exijam intervenções invasivas e custosas.

Um projeto anterior, financiado pela Fundação Getty dentro do programa Keeping It Modern, investigou o estado de conservação do edifício da FAU-USP e gerou recomendações que influenciaram obras pontuais, como um novo sistema de impermeabilização da cobertura e uma rampa de acesso. No entanto, a professora reconhece que mudar a cultura de manutenção do patrimônio público ainda é um desafio.

“Nós ainda não estamos conseguindo agir de forma preventiva, porque há um passivo grande a enfrentar”, admitiu. “Mas esta nova pesquisa visa justamente direcionar para essa finalidade: antever e evitar intervenções mais invasivas.”

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Para Beatriz Kuhl, a experiência brasileira pode se beneficiar de referências consolidadas, como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, onde uma política sistemática de conservação preventiva foi aplicada com sucesso nas duas primeiras décadas deste século.

Do lado teórico, o grupo de pesquisa da professora atuará na reflexão crítica sobre métodos de diagnóstico avançado e sua articulação com questões conceituais da conservação e o planejamento de planos de conservação. “São duas coisas que se tensionam e que nos ajudam a enxergar os problemas de outra maneira”, concluiu.