Macacos rhesus e babuínos-oliva são capazes de entender conceitos geométricos abstratos, como simetria, lados paralelos e ângulos retos, revela um estudo publicado na semana passada nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of the National Academy of Sciences). A pesquisa, conduzida por neurocientistas da Universidade Carnegie Mellon, desafia a noção de que essa habilidade é exclusiva dos humanos.
O experimento de correspondência de formas
Os pesquisadores, liderados pela neurocientista cognitiva Jialin Li, propuseram a oito macacos (quatro macacos rhesus e quatro babuínos-oliva), crianças em idade pré-escolar e adultos humanos com diferentes níveis de escolaridade a mesma tarefa geométrica: visualizar uma forma em uma tela e, em seguida, escolher a mesma forma entre um grupo de outras. A tarefa envolvia identificar formas mesmo quando rotacionadas ou redimensionadas.
"Ao manipular a semelhança das formas, conseguimos observar que tipos de regras eles estão usando", explicou Jessica Cantlon, neurocientista cognitiva cujo laboratório conduziu o estudo. Para acertos, os participantes recebiam feedback positivo — petiscos para os macacos, adesivos para as crianças e elogios para os adultos. Os erros, sem recompensa, ajudaram a entender quais conceitos eram mais fáceis ou difíceis para o cérebro.
Resultados desafiam visão tradicional
Os resultados mostraram que todos os participantes — macacos, crianças e adultos — eram capazes de fazer conexões entre formas e seus ângulos, proporções e padrões. "Nossa hipótese era de que os humanos não são tão únicos assim" por possuírem essa compreensão matemática, afirmou Jialin Li, principal autora do estudo.
David Freedman, neurobiólogo da Universidade de Chicago, destacou que "a tarefa certamente depende de uma ampla rede de regiões e circuitos cerebrais envolvidos no processamento visual e cognitivo". A habilidade de reconhecer formas independentemente de rotação ou escala sugere que a intuição geométrica evoluiu muito antes dos humanos.
Implicações evolutivas
Ed Wasserman, psicólogo experimental da Universidade de Iowa, que não participou do estudo, comentou: "Esses não são os únicos animais na Terra que precisam lidar com geometria". Ele lembrou que pombos, por exemplo, são ainda melhores que humanos em algumas tarefas de reconhecimento de formas, uma habilidade útil para orientação durante o voo.
Earl Miller, neurocientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, acrescentou: "Nós, humanos, tendemos a superestimar o quão especiais somos. Se cada novo ângulo fizesse um objeto parecer completamente diferente, a vida seria um caos."
Andreas Nieder, fisiologista animal da Universidade de Tübingen, na Alemanha, considerou o estudo "oportuno e informativo" por fornecer "informações importantes sobre as origens evolutivas da intuição geométrica".
Próximos passos
Os autores já planejam a próxima fase: identificar quais formas são mais difíceis de reconhecer para macacos e humanos. Esse conhecimento poderá orientar professores no ensino de conceitos geométricos complexos. O estudo atual, no entanto, não testou a capacidade de combinar formas simples em estruturas mais complexas, deixando perguntas sobre o processamento geométrico de nível superior.



