Cultura explica diferenças entre nações e pode transformar sociedades
Cultura explica diferenças entre nações e pode transformar

Cultura como chave para entender nações

Há quem insista em definir a natureza de um povo por um par de palavras: os franceses são assim, os alemães, assado... É ir longe demais. Não obstante, a inconsútil noção de cultura ajuda a entender alguns rumos e estilos de nações e povos.

Inglaterra versus França: autômatos e autorregulação

Um artigo no Scientific American, já bem antigo, comparava as proezas mecânicas inglesas com as francesas, no auge da Revolução Industrial. A mecânica de precisão francesa construía autômatos capazes de múltiplas gracinhas, como bonecos bailando e tocando instrumentos. Já os ingleses construíam reguladores de velocidade para máquinas, autocontrolados. Quando aumenta a velocidade, a força centrífuga comanda uma válvula que reduz o fluxo de vapor.

A sociedade francesa, mais hierarquizada e comandada de cima para baixo, construía autômatos obedientes. Os ingleses, teimosamente individualistas, construíam aparatos que se autorregulavam. Cultura explica.

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Rússia: criatividade e submissão forçada

Leon Theremin, inventor russo, preso num gulag, foi forçado a desenvolver um sistema de escuta passiva, para ser usado em espionagem. Minúsculo, o aparato foi escondido no gabinete do embaixador americano. Antes de ser descoberto, bisbilhotou durante sete anos.

Anteriormente, ele havia inventado o Theremin, um instrumento musical eletrônico – tocado aproximando e recuando a mão. Chegou a fazer sucesso na Rússia, mas acabou banido por Stalin, por razões obscuras. E por haver visitado os Estados Unidos, foi premiado com dez anos num gulag.

Essa é a Rússia, com seu povo criativo e forçado à submissão, ao longo de séculos de autoritarismo. Contava-se que um russo passava na rua e via uma gigantesca fila. Sem perguntar, entrava nela. Finalmente, comprava um par de sapatos, apesar de não ser do seu número. Era o que havia. Para o povo, migalhas. Um jornalista suíço comentava que, ao aparecer o automóvel do modelo Lada no seu país, a junta homocinética costumava quebrar. Dez anos depois, continuava quebrando.

No início dos anos 90, em missão à União Soviética, descobri que lá não existia fio dental nem desodorante. Fiquei numa dacha governamental, no Usbequistão. Em lugar de papel higiênico, havia pedaços de jornal. É assim, o povo serve ao Estado e este não serve ao povo.

Da espionagem soviética ao consumidor americano

O nefando microfone acabou na CIA, que o repassou para os físicos americanos. Da espionagem, a ideia migrou para a iniciativa privada. Por meio de um chip, inspirado nesse microfone, pagam-se os pedágios, sem parar o carro. E, não menos notável, inspirou também o chip que permite cobranças no cartão de crédito, apenas aproximando-o da maquininha.

No primeiro país, um físico injustamente preso é obrigado a inventar um microfone para os espiões do Estado. No outro, a CIA entrega às empresas um segredo que irá beneficiar o cidadão comum. Reinado do consumidor. Não podia ser o inverso, pois estaria na contramão da cultura.

Brasil: desorganização versus excelência das escolas de samba

No Brasil, a produtividade é baixa e se recusa a crescer. Mas é curioso o contraste com as escolas de samba do Rio – justamente uma cidade que coleciona mazelas. Estudos mostraram um grau extremo de organização e rigorosa implementação nos desfiles. São milhares de pessoas, coordenadas numa operação em que tudo é milimetricamente definido e cronometrado. Por que o desleixo da sociedade e o paroxismo de organização nessas escolas? Vence a cultura do samba.

Cultura pode mudar: exemplos históricos

Cada um com sua cultura, filtrando as forças que determinam os rumos da sociedade. Mas será para sempre? Ou as sociedades podem mudar?

A Inglaterra foi a precursora da Revolução Industrial. Em São João del Rei, há uma locomotiva inglesa, do século 19. Impávida, continua operando. Porém, no pós-guerra, o país teve um dos processos mais vertiginosos de desindustrialização. De suas exportações industriais, sobraram Jaguar e Land Rover. Mas são considerados os carros menos confiáveis e mais caros para consertar. Ou seja, a cultura da qualidade esmoreceu.

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Um sociólogo respeitado afirmou que os camponeses toscos de sua terra seriam incapazes de virar operários industriais exemplares, como os ingleses. Portanto, não via chances de sucesso no seu processo de industrialização. O sociólogo era alemão e se referia ao seu país, em meados do século 19. Considerando o que virou a Alemanha, como poderia estar tão errado! Ou seja, a cultura pode mudar.

Em Petrolina, foi arquitetado um grande projeto de irrigação. Mas quem pegaria no pesado? É uma das nossas regiões mais remotas e atrasadas. De tão perto de Canudos, muitos ali poderiam ser descendentes da “cabroeira” selvagem que dizimou o Exército Brasileiro. Não pareciam “domáveis”. Porém, levou pouco para adquirirem os traços da modernidade. Introjetaram a cultura de qualidade do Porto de Roterdã, onde eram fiscalizadas as mangas e uvas.

Lições para o futuro

Quem sabe, os favelados que organizam as escolas de samba não poderiam abrir escritórios de consultoria, para ajudar às empresas brasileiras? Fico imaginando uma fila de industriais, subindo o morro, para receber instruções de como organizar suas empresas. A primeira lição teria de ser sobre a cultura organizacional dos funcionários.