Uma tecnologia inédita no Brasil começou a ser instalada de forma experimental na Enseada de Bom Jesus, na Ilha do Fundão, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Dispositivos formados por rolos de cabelo humano envolvidos em malha de algodão foram acoplados a uma barreira flutuante de cerca de 300 metros, que já era usada para reter lixo e agora também absorve poluentes oleosos.
Como funciona a barreira de cabelo
Estudos indicam que um grama de cabelo pode absorver, em média, cinco gramas de óleo, tornando o material uma alternativa eficiente e de baixo custo no combate à poluição. A ação é liderada pelas organizações não governamentais (ONGs) Orla Sem Lixo Transforma (OSLT) e Fiotrar, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. É a primeira vez que essa tecnologia é aplicada em ambiente natural no país.
Os rolos de cabelo humano são aproveitados a partir de materiais que seriam descartados pela ONG Cabelegria, que confecciona perucas para pacientes com câncer. A presidente da ONG Cabelegria e fundadora da Fiotrar, Mariana Robrahn, celebra a instalação da barreira. "Sempre recebemos muitas doações de cabelo para a confecção de perucas, mas muitas vêm fora das especificações necessárias para esse uso e são descartadas ainda na triagem", contou Mariana. "Além disso, no próprio processo de confecção da peruca também há uma perda significativa de fios. Eu sou uma pessoa que recicla tudo e o descarte de todo esse cabelo sempre me incomodou muito."
Testes e adaptação às condições locais
Em 2019, Mariana descobriu uma ONG nos Estados Unidos, a Matter of Trust, que usava cabelos humanos para criar mantas para retirar petróleo dos oceanos. "Acabamos criando um novo CNPJ (a ONG Fiotrar) para dar essa destinação aos fios descartados pela Cabelegria", explicou. A coordenadora do Orla Sem Lixo Transforma e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Suzana Vinzon, contou que o projeto passou por um ciclo de testes ao longo do último ano, adaptando a tecnologia às condições ambientais específicas da Baía de Guanabara e às características estruturais das barreiras desenvolvidas.
Os estudos da equipe da UFRJ revelaram também que as mantas de cabelo humano são eficazes não apenas na retenção de óleo, mas também de metais pesados. A proteção dos manguezais é considerada estratégica para a resiliência da Baía de Guanabara. Esses ecossistemas funcionam como barreiras naturais, reduzindo a força das ondas e protegendo a costa contra erosão e eventos extremos.
Impacto ambiental e preservação dos manguezais
Ao evitar a contaminação por óleo e lixo, a nova tecnologia ajuda a preservar essas áreas, fundamentais também para o sequestro de carbono e a manutenção da biodiversidade. "As nossas barreiras (de isopor) físicas impediam o retorno do lixo retirado dos manguezais. Agora, com a manta de cabelos acoplada a ela, impede também o retorno do óleo", explicou Suzana. A iniciativa representa um avanço importante para a proteção do manguezal local, que está entre os pontos de maior contaminação do mundo, segundo estudos.



