Brasil precisa de política externa autônoma em mundo fragmentado, diz artigo
Brasil precisa de política externa autônoma em mundo fragmentado

O mundo como conhecíamos não existe mais. A disputa por hegemonia entre EUA e China, guerras, além da escalada do protecionismo e do armamentismo são elementos de uma realidade que revela algo maior: a configuração de um cenário global mais fragmentado, imprevisível e perigoso.

Revolução tecnológica e desafios

Outro pilar importante deste novo momento é a profunda e acelerada revolução tecnológica. Os avanços da inteligência artificial agregam-se a tecnologias disruptivas que trouxeram mudanças em todas as dimensões, desde o cotidiano da vida humana, passando pelas disputas de poder, até os métodos e equipamentos de guerra.

Em períodos como o atual, o principal desafio não é só compreender as vertiginosas mudanças, mas definir como posicionar-se diante delas. Desse modo, é imperioso responder: qual a política externa mais adequada para o Brasil?

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Autonomia pragmática e universalista

A primeira premissa consiste em reconhecer que o Brasil é grande demais para se subordinar a qualquer bloco de poder. Sua dimensão territorial e demográfica, seu peso econômico, sua base produtiva e sua tradição diplomática respaldam uma atitude de autonomia pragmática e universalista. Isso significa preservar capacidade de diálogo com diferentes polos e evitar escolhas que reduzam o espaço de negociação.

Os números ajudam a dimensionar a complexidade desse tabuleiro para nós. Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e China atingiu níveis recordes, superiores a US$ 170 bilhões. Ao mesmo tempo, os EUA seguem como o principal investidor em nossa economia, com participação relevante em setores de tecnologia, serviços e indústria. Esse panorama reforça a necessidade de equilíbrio, e não de escolhas excludentes.

Geopolítica e protecionismo

É decisivo saber realizar movimentos corretos num cenário planetário particularmente instável. O Brasil, sejamos francos, não é uma potência militar, tampouco tem motivos para provocar antagonismos ou instigar tensões.

Ao mesmo tempo, a geopolítica voltou a preponderar na economia. A era da globalização guiada pela eficiência nas cadeias de valor perdeu espaço para um mundo mais protecionista, com fluxos comerciais alterados. As consequências desse cenário já se fazem sentir entre nós. Um exemplo é o segmento de papel-cartão. Trata-se de cadeia industrial sofisticada, essencial para embalagens de alimentos, medicamentos, cosméticos, produtos de higiene, entre outros, com forte integração ao setor de reciclagem. Realidade semelhante se agrava quanto ao papel cutsize, usualmente conhecido como papel de imprimir e escrever. Tais segmentos, que integram a vencedora e globalmente competitiva cadeia de celulose e papel, passaram a enfrentar graves desafios no Brasil. Barreiras protecionistas não só brecaram exportações nacionais, mas também levaram ao redirecionamento de excedentes de produtos de outros países para nosso território.

O processo opaco de formação de preços em algumas economias, na prática, equivale à concorrência desleal. Resultado: fechamento de fábricas e impacto sobre empregos no nosso país.

Vantagens comparativas do Brasil

Numa conjuntura como essa, é fundamental valorizar os ativos nacionais, especialmente aqueles que podem nos colocar na vanguarda da bioeconomia, da transição energética e da produtividade. É possível enxergar temas fundamentais nos quais o Brasil faz a diferença: segurança alimentar, soluções baseadas na natureza, energia limpa e minerais estratégicos. Poucos países reúnem escala territorial com disponibilidade de terras antropizadas e tecnologia que permitam avançar no cultivo agrícola sem desmatamento. Nosso agro é um case global de sucesso. Em menos de meio século, deixamos de ser importadores para nos tornarmos provedores de alimentos para cerca de 10% da população planetária. Além disso, abrigamos 12% da água doce do mundo.

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Em paralelo, cresce a busca por fontes renováveis e cadeias produtivas menos intensivas em carbono. Nosso parque hidrelétrico já é robusto, temos avanços importantes em energia solar e eólica, uma notável experiência com biomassa e a possibilidade de desenvolvimento de novas fontes de energia, como o hidrogênio de baixa emissão. O Brasil pode expandir sua relevância internacional, provendo serviços e produtos a partir de energia limpa.

Petróleo e minerais estratégicos

As tensões no Oriente Médio escancararam a profunda dependência do planeta por combustíveis fósseis. Aliás, por decisões corretas no passado recente, o Brasil se tornou grande exportador de petróleo, gerando recursos que podem servir de alavanca para o desenvolvimento da economia verde. Ademais, temos um rico subsolo que abriga minerais críticos para a transição energética e a segunda maior reserva mundial de terras raras. Esses são insumos fundamentais para a fabricação de baterias, geradores eólicos e veículos elétricos, sem contar as inúmeras outras aplicações em chips, satélites, aviões e radares, para mencionar apenas algumas.

Estratégia e interesses nacionais

A verdade é que nenhuma vantagem se sustenta sem estratégia. Se quisermos estar bem posicionados nessa disputa, não podemos admitir improvisos ou dar passos que nos coloquem em situação de fragilidade. Em tempos de desordem global, terão mais chances de prosperar os países que se mostrem capazes de decifrar o presente, conduzindo sua política externa com claro balizamento nos interesses nacionais.