A disputa interna no Partido dos Trabalhadores (PT) do Rio de Janeiro ganhou novos contornos com a decisão dos deputados federais Lindbergh Farias e Marcelo Freixo de recorrerem à executiva nacional da legenda. O objetivo é derrubar a resolução do diretório estadual que destinou o número de urna 1313 ao filho do dirigente Washington Quaquá. O caso levanta questionamentos sobre o uso de interesses familiares em deliberações estratégicas do partido.
Entenda o conflito
O diretório do PT no Rio resolveu reservar o número 1313 para o filho de Washington Quaquá, integrante influente da sigla no estado. A escolha do número, no entanto, não foi aceita passivamente por outras alas do partido. Lindbergh Farias e Marcelo Freixo, ambos com forte atuação no cenário federal e estadual, protocolaram recurso na instância máxima do PT para questionar a medida. Para eles, a resolução beneficia diretamente um parente de um dirigente, o que contraria princípios históricos da legenda.
Em articulação nos bastidores, os parlamentares e outros filiados defendem a tese de que a definição de números eleitorais não pode servir a privilégios pessoais. A expressão usada nos corredores do partido é a de que seria "inaceitável que interesses familiares orientem as decisões estratégicas" do PT. A frase resume o sentimento de parte dos petistas diante da decisão tomada no Rio.
O papel do número na campanha
No sistema eleitoral brasileiro, o número de urna funciona como uma espécie de identidade do candidato diante do eleitor. Cada partido possui um número principal — no caso do PT, o 13. As variações, como 1313, são atribuídas a candidatos proporcionais, como deputado estadual e federal. A repetição numérica do 1313 tende a facilitar a memorização, o que pode representar uma vantagem simbólica no momento da votação.
Por essa razão, a atribuição de um número como o 1313 é vista como um ativo eleitoral relevante. A doação desse número ao filho de um dirigente, sem um critério claro de disputa interna, gera incômodo entre pré-candidatos que se sentem preteridos. O episódio evidencia uma disputa mais ampla pelo controle das estruturas partidárias no Rio, onde o PT busca se consolidar como principal força de oposição após o último pleito municipal.
Reação de Lindbergh e Freixo
Lindbergh Farias é uma liderança histórica do PT fluminense e já foi prefeito de Nova Iguaçu, senador e candidato ao governo do estado. Marcelo Freixo, por sua vez, é deputado federal e teve atuação destacada na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Milícia, além de ser uma das principais vozes da esquerda no parlamento. A união dos dois em torno do recurso indica que a decisão do diretório estadual ultrapassou os limites de uma simples escolha de logística eleitoral.
Ao acionar a executiva nacional, os deputados buscam uma revisão da resolução e uma definição de critérios mais transparentes para a distribuição de números eleitorais. O movimento também é uma resposta direta à forma como a direção do partido no Rio vem conduzindo as definições para as eleições municipais, que se aproximam.
Nos bastidores, a expectativa é que o caso seja analisado em reunião da executiva nacional nos próximos dias. Não há consenso sobre a legalidade da medida, mas a pressão política é crescente. Aliados de Quaquá tentam minimizar o episódio, enquanto os opositores veem o caso como uma oportunidade para reafirmar valores éticos.
Impacto para o partido
O desfecho do recurso pode influenciar o equilíbrio de forças interno no PT do Rio. Caso a executiva nacional determine a anulação da decisão, a direção estadual sofrerá um revés significativo. Se mantiver o número 1313 para o filho de Quaquá, o partido precisará lidar com o desgaste interno e a repercussão negativa na opinião pública.
Para analistas políticos, o episódio reforça a necessidade de o PT adotar mecanismos mais democráticos e impessoais na escolha de números de campanha. Em um momento em que a sigla busca ampliar sua base e reconstruir sua imagem, casos como este podem comprometer a narrativa de renovação. A decisão final caberá à instância nacional, mas o assunto já domina as conversas entre filiados e pré-candidatos no Rio de Janeiro.



