A convenção nacional do PL e a do PSD, realizadas no mesmo fim de semana, tiveram um personagem em comum mesmo sem que ele estivesse presente nos dois palcos. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tornou-se o principal ativo político disputado pelos pré-candidatos da direita à Presidência, em um movimento que revela o peso eleitoral de sua imagem e os limites de sua estratégia de neutralidade.
Participação seletiva de Tarcísio nas convenções
Tarcísio participou da convenção que oficializou Flávio Bolsonaro (PL) como candidato ao Palácio do Planalto e reiterou apoio ao senador. No entanto, adotou um discurso contido, evitando transformar o evento em uma demonstração exagerada de engajamento na campanha presidencial. No encontro da direita, Flávio promoveu Tarcísio enquanto governador, e Tarcísio, por sua vez, promoveu Flávio. Horas depois, sua ausência na convenção que confirmou Ronaldo Caiado (PSD) como candidato à Presidência chamou atenção. O governador era esperado no evento para receber o apoio formal do PSD à sua reeleição em São Paulo, mas desistiu de comparecer após o partido divulgar uma peça publicitária que o colocava ao lado de Caiado, segundo apuração do jornal Estado de S. Paulo.
Incômodo com uso de imagem na campanha de Caiado
O convite, compartilhado pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, reunia as imagens dos dois políticos e reforçava a aliança entre a candidatura de Caiado ao Planalto e a de Tarcísio ao governo paulista. Nos bastidores, aliados do governador relataram incômodo com a utilização de sua imagem em uma campanha presidencial da qual ele não faz parte. A situação expõe a linha tênue que Tarcísio tenta manter: apoiar nominalmente Flávio Bolsonaro, mas não se tornar um símbolo de outras candidaturas. O episódio demonstra que, mesmo sendo um aliado declarado, o governador pretende controlar como sua popularidade é explorada politicamente.
O equilíbrio entre dois aliados
O episódio expõe a posição singular ocupada por Tarcísio na direita. Embora tenha declarado apoio a Flávio Bolsonaro, o governador evita assumir um protagonismo nacional que possa reduzir sua capacidade de dialogar com outras forças do campo conservador. Ao mesmo tempo, partidos que não integram a campanha presidencial do PL tentam associar sua imagem às próprias candidaturas. Na prática, Tarcísio tornou-se um ponto de convergência para diferentes projetos políticos. Flávio busca transferir para a disputa nacional parte da popularidade do governador em São Paulo. Caiado, por sua vez, tenta demonstrar proximidade com um dos nomes mais bem avaliados da direita, ainda que não exista uma aliança formal entre os dois.
O peso eleitoral de São Paulo
O interesse em torno de Tarcísio é sustentado por seus índices de popularidade. Pesquisa Datafolha divulgada neste mês mostra o governador liderando com folga a disputa pela reeleição em São Paulo. No único cenário testado, ele aparece com 46% das intenções de voto, 16 pontos percentuais à frente do ex-ministro Fernando Haddad (PT), que registra 30%. O levantamento também aponta estabilidade na avaliação da administração estadual. Para 45% dos paulistas, o governo Tarcísio é ótimo ou bom. Outros 32% o classificam como regular, enquanto 20% consideram a gestão ruim ou péssima. Esses números ajudam a explicar por que sua imagem passou a ser disputada pelos presidenciáveis. São Paulo concentra o maior eleitorado do país e costuma desempenhar papel decisivo nas eleições nacionais. Um candidato competitivo no estado pode influenciar não apenas a votação presidencial, mas também a mobilização de prefeitos, deputados e lideranças regionais.
Apoio com limites
Apesar da aproximação com Flávio Bolsonaro, Tarcísio tem evitado fazer da eleição presidencial o eixo de sua campanha. Na convenção do PL, o governador reafirmou apoio ao senador, mas sem assumir um papel de coordenador político da candidatura. Já no episódio envolvendo o PSD, demonstrou que também pretende controlar a forma como sua imagem será utilizada por outras campanhas. A postura reflete um cálculo político. Como favorito à reeleição, Tarcísio tem mais incentivos para preservar uma coalizão ampla em São Paulo do que para se envolver diretamente na disputa entre os diferentes projetos da direita nacional. Esse equilíbrio explica um cenário incomum: o governador é apoiado por Flávio Bolsonaro, recebe gestos de aproximação de Ronaldo Caiado e, ao mesmo tempo, procura manter distância suficiente para que nenhum dos dois transforme sua popularidade em um ativo exclusivo da campanha presidencial.



