A convenção estadual do PL em Santa Catarina exibiu, neste sábado, 1º de fevereiro, um novo vídeo com a voz e imagens de Jair Bolsonaro. O material foi apresentado durante o evento que confirmou o senador Flávio Bolsonaro como candidato do partido à Presidência da República, em uma demonstração pública de apoio ao ex-presidente. A exibição ocorre exatamente uma semana após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ter cobrado explicações sobre a utilização de um vídeo semelhante, produzido com inteligência artificial, na convenção nacional do PL.
O vídeo, que reúne falas já conhecidas de Bolsonaro e imagens de arquivo, foi transmitido em diferentes momentos da convenção. O evento também oficializou as candidaturas de Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni ao Senado por Santa Catarina e confirmou Jorginho Mello (PL) como candidato à reeleição ao governo estadual. A plateia acompanhou o material em clima de mobilização, enquanto dirigentes partidários reforçavam o nome de Flávio Bolsonaro para a disputa presidencial.
O que diz o vídeo exibido
Nas imagens, Bolsonaro aparece ao lado dos filhos, em uma cena de mãos em oração e em um abraço dado em Flávio. A narração do vídeo inclui frases como “o meu sonho é o sonho de vocês” e “nós revolucionaremos o Brasil”. O texto também faz referência a um momento pessoal do ex-presidente: “No momento mais difícil da minha vida, eu só pedia que Deus não deixasse órfã a minha filha de sete anos”.
A gravação prossegue com a conclusão: “O resto, como brasileiros de verdade e com Deus no coração, nós superaremos os obstáculos”. Ainda não está claro se a voz usada no material foi gerada por inteligência artificial ou se é do próprio Bolsonaro, já que as declarações foram proferidas por ele em outras ocasiões. A dúvida é justamente o centro da controvérsia que chegou ao Supremo.
Moraes cobra explicações
Na semana passada, Moraes determinou que a defesa de Bolsonaro se manifestasse sobre a veiculação de um vídeo de IA na convenção do PL que lançou Flávio. No despacho, o ministro escreveu que uma eventual concordância do ex-presidente com a divulgação de um material produzido por inteligência artificial, com imagens e declarações ostensivamente político-eleitorais, “constituiria nova e grave transgressão à decisão judicial”. Segundo Moraes, a conduta seria passível de reverter a prisão domiciliar humanitária de Bolsonaro para o regime fechado.
A decisão cita ainda que o vídeo foi amplamente divulgado nas redes sociais, aumentando o alcance da mensagem política e o potencial impacto sobre o processo eleitoral. O ministro também relembrou que a medida cautelar imposta a Bolsonaro inclui restrições à comunicação e à participação em atos de natureza política, o que tornaria o uso de sua imagem e voz um possível descumprimento das condições judiciais.
Defesa nega conhecimento prévio
Após o questionamento de Moraes, a defesa de Bolsonaro informou ao STF que o ex-presidente não tinha conhecimento prévio sobre o vídeo exibido na convenção nacional. Flávio Bolsonaro também saiu em defesa do pai. Em transmissão no canal do YouTube, o senador afirmou que Bolsonaro não tinha “a menor ideia de que ia passar um vídeo de IA” naquele evento.
Flávio acrescentou: “E, obviamente, que estudamos a legislação que não tem absolutamente nada de errado”. A declaração busca afastar a interpretação de que houve intenção de burlar a decisão judicial. No entanto, o novo episódio em Santa Catarina tende a pressionar ainda mais a defesa, que agora precisa explicar por que um material semelhante voltou a ser exibido em um evento oficial do partido.
Impacto político e jurídico
A repetição do vídeo em uma convenção estadual, mesmo após a cobrança do STF, sinaliza que o entorno de Bolsonaro mantém a estratégia de usar a imagem do ex-presidente como principal ativo de campanha. A presença de Flávio no evento reforça a aposta do PL na herança política bolsonarista para as eleições deste ano, tanto na disputa presidencial quanto nas candidaturas proporcionais.
Aliados avaliam que a exibição pode ser interpretada como um teste aos limites impostos pelo Judiciário. A decisão de Moraes, que ainda não julgou o mérito, deixou claro que a concordância de Bolsonaro com a divulgação de vídeos de IA pode ter consequências graves. Com o novo caso, a tendência é que o STF volte a exigir esclarecimentos e que a defesa adote uma postura mais cautelosa em relação ao uso de materiais com a voz e a imagem do ex-presidente.
A reportagem procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para comentar o novo vídeo, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para manifestação.



