Defesa brasileira é precaríssima e sofre com cortes e falta de previsibilidade
Defesa brasileira é precaríssima e sofre com cortes

Em junho de 2026, o ministro da Defesa, José Múcio, afirmou em evento com representantes da Base Industrial de Defesa, em Brasília: “A Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos Defesa”. A frase soou exagerada para alguns. A seu ver, porém, ela cumpre uma função importante: retirar o tema da invisibilidade, incluindo-o na agenda pública. Reconhecer essa insuficiência é particularmente difícil num país acostumado a acreditar que jamais enfrentará ameaças relevantes.

Contexto geopolítico e o peso da dissuasão

A tradição diplomática brasileira de conciliação é admirável, e vinha funcionando muito bem em tempos de um multilateralismo operante. Contudo, quando os mecanismos internacionais de pesos e contrapesos desse multilateralismo deixam de funcionar e alianças começam a ser revistas, o poder da pena – do acordo diplomático e da mediação escrita por si só – fica leve demais. Nesses contextos, infelizmente, o lastro dessa mesma pena é o chumbo das armas e das capacidades militares.

Recursos extraordinários e contingenciamentos: saldo líquido insuficiente

Entre contingenciamentos e recursos extraordinários, os R$ 30 bilhões em recursos extraordinários anunciados pelo presidente Lula em novembro de 2025 indicam o reconhecimento, pelo próprio governo, das fragilidades das capacidades nacionais de defesa. A previsão é que esse montante seja utilizado ao longo de seis anos, à razão de R$ 5 bilhões anuais, sem compor o cálculo do teto fiscal. Contudo, o Ministério da Defesa ficou em primeiro lugar na lista dos mais afetados no último contingenciamento. O corte nos gastos do ministério foi de R$ 4,363 bilhões, ou seja, no balanço de 2026, deu-se R$ 5 bilhões de um lado e retirou-se quase o mesmo montante de outro, num intervalo de pouco mais de seis meses. Entre contingenciamentos e recursos extraordinários, o saldo líquido adicional para 2026 é de aproximadamente R$ 637 milhões.

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Com essa cifra, não dá para fazer muito. Os drones e sistemas antimísseis parecem ser a prioridade do momento, mas ainda não compõem os principais projetos estratégicos das forças. Gastando-se com os drones, restariam ainda outros gargalos: a Marinha pediu, em março deste ano, R$ 1 bilhão adicional apenas para evitar atrasos na entrega final do submarino de propulsão nuclear. Aumentar a frota de Gripens da Força Aérea também fica fora de cogitação, já que apenas uma unidade da aeronave Gripen custa R$ 898 milhões, no valor contratual firmado em 2014.

Logística e gargalos operacionais

No caso do Exército, com a verba poder-se-ia comprar uma maior quantidade de blindados, a depender dos modelos escolhidos. O problema, entretanto, mora na logística, cuja solução exigiria investimentos adicionais de grande porte. O próprio ministro mencionou que foram necessários 55 dias para o deslocamento de blindados do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso do Sul até a fronteira norte do País, para fazer frente à questão de Essequibo.

Extraordinário mesmo é ter previsibilidade. As consequências de não se ter materiais de emprego militar no lugar e tempo adequados são nefastas e, em última instância, podem custar a soberania do País. O ministro sabe disso. A lentidão logística e de desenvolvimento tecnológico brasileiros não apenas apontam para vulnerabilidades em hipóteses de crise, mas também contribuem para reduzir nosso poder de dissuasão frente a ameaças externas.

Defasagem tecnológica e necessidade de autonomia

Agrava a situação o fato de que, na defesa, nem todos os produtos estão disponíveis na prateleira e que os saltos tecnológicos têm se tornado cada vez mais frequentes e disruptivos, em especial quando se trata de uso militar de inteligência artificial e tecnologias quânticas. Muitas dessas tecnologias vêm sendo desenvolvidas por países que não as querem compartilhar. Nessas circunstâncias, resta desenvolvê-las de forma autóctone, o que exige o fomento contínuo a ambientes de inovação, em processos que demandam tempo para produzir resultados concretos.

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A descontinuidade orçamentária pode significar aumentos expressivos nos prazos de conclusão desses tipos de projetos, o que aumenta o risco de investirmos no desenvolvimento de tecnologias que serão obsoletas desde o nascedouro. Logo, se as verbas extraordinárias ajudam, extraordinário mesmo é ter constância e previsibilidade no investimento.

Investimento em Defesa como questão de soberania

Autonomia não se compra fiado. Independentemente dos juízos morais e éticos sobre a guerra, o fato é que, quando ela chega, ela se impõe. Pode exigir engajamento, alinhamento ou força suficiente para sustentar a autonomia de um não alinhamento. A tranquilidade para escolher como responder a essas pressões só pode ser construída décadas antes do dia em que tais capacidades serão necessárias, o que não se faz sem investimento.

Ressaltar a importância da perenidade, previsibilidade e quiçá do aumento dos investimentos em defesa não significa diminuir a aposta na diplomacia, militarizar a sociedade ou deixar de cobrar eficiência no uso desses recursos. Trata-se, no entanto, de reconhecer que já nos encontramos atrasados em termos de desenvolvimento tecnológico e industrial, tanto na esfera civil quanto na militar, e que investir agora é uma tentativa de reduzir uma lacuna que já se tornou expressiva – e que tende a se ampliar caso continuemos tratando a Defesa como uma agenda episódica.