A 6ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira (7), tem como alvos o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella e o ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, delegado Marcus Vinícius Amim. A investigação apura conexões de agentes públicos com grupos criminosos que atuam no estado.
Investigação disciplinar contra ex-secretário
A Corregedoria da Polícia Civil informou que instaurou uma investigação disciplinar contra Marcus Vinícius Amim, que comandou a Polícia Civil fluminense entre outubro de 2023 e agosto de 2024. Sua nomeação dependeu da aprovação de um projeto de lei na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para permitir que delegados com menos de 15 anos de carreira assumissem o comando da secretaria.
Em 2018, o então deputado Márcio Canella propôs a concessão da Medalha Tiradentes, principal honraria da Alerj, ao delegado Amim. A Polícia Civil afirmou em nota que "não compactua com eventuais desvios de conduta" e que mantém "mecanismos de controle interno voltados à apuração de irregularidades". O g1 procurou a defesa de Amim, mas não obteve resposta.
Esquema de lavagem de dinheiro em postos de gasolina
Um dos focos da operação é uma rede de postos de combustíveis no Grande Rio que movimentou R$ 7,6 bilhões em um suposto esquema de lavagem de dinheiro, com anuência de políticos. Além de Canella e Amim, outros agentes da ativa da Polícia Civil também são investigados. Outro alvo é o ex-PM e miliciano Juracy Alves Prudêncio, o Jura, citado no relatório final da CPI das Milícias da Alerj como chefe de um grupo paramilitar em Nova Iguaçu. Ele foi condenado e preso por homicídio e associação criminosa.
A PF cumpre 19 mandados de busca e apreensão em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense. A Justiça determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo.
Alerta do Coaf e origem das investigações
As investigações começaram com um relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que apontou movimentação de R$ 7,6 bilhões pelo grupo nos últimos seis anos. "Além do crime de organização criminosa, os investigados poderão responder por contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro", disse a PF. A ação está inserida no contexto da ADPF 635 (ADPF das Favelas), do Supremo Tribunal Federal, que determinou à PF investigar relações de agentes públicos com facções criminosas.
5ª fase e ligações com Cláudio Castro
Na última quinta-feira (2), a 5ª fase da Unha e Carne mirou o empresário Fernando Trabach Gomes, dono de postos que abasteceram a frota da campanha de reeleição do governador Cláudio Castro (PL) em 2022. A prestação de contas ao TSE mostra gasto de R$ 478 mil na compra de 70 mil litros de diesel, dos quais dez postos de Trabach forneceram o combustível. Após a posse, empresas de Trabach firmaram contratos com o governo estadual. O empresário já foi investigado pelo MP-RJ por suspeita de integrar organização criminosa.
Trajetória de Márcio Canella
Márcio Canella foi eleito vereador de Belford Roxo em 2012, deputado estadual em 2015 e permaneceu na Alerj por três mandatos. Licenciou-se para ser vice-prefeito de Waguinho (2017-2019), mas os aliados se afastaram após as eleições de 2022, quando Canella apoiou Bolsonaro e Waguinho, Lula. Em 2024, Canella foi eleito prefeito de Belford Roxo, derrotando Matheus do Waguinho. Em abril de 2026, renunciou para concorrer ao Senado, apoiado por Flávio Bolsonaro e Douglas Ruas. Assumiu a vice-prefeita Mariana Malta.
Fases anteriores da Operação Unha e Carne
A operação teve cinco fases desde dezembro de 2025. A 1ª fase mirou o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, hoje cassado e preso, por vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun contra o Comando Vermelho. A 2ª fase aprofundou as apurações e prendeu o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, suspeito de repassar informações a Bacellar. A 3ª fase, em março de 2026, resultou na nova prisão de Bacellar após cassação pelo TSE e denúncia da PGR. A 4ª fase, em maio de 2026, prendeu o deputado estadual Thiago Rangel por fraudes em compras da Secretaria Estadual de Educação. A 5ª fase prendeu o pastor Márcio Poncio e o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho (Adilsinho), além de cumprir mandados contra Bacellar.



