Regulação de bets é insuficiente, diz especialista; é preciso limitar plataformas
Regulação de bets insuficiente; é preciso limitar plataformas

A regulação das apostas no Brasil avançou, mas ainda é insuficiente para coibir práticas que estimulam o vício. É o que afirma o economista Flávio Ataliba Barreto, especialista no tema. Para ele, não basta apenas regulamentar o setor; é necessário impor limites à própria arquitetura das plataformas de jogos online, que são desenhadas para incentivar apostas rápidas e impulsivas.

Arquitetura das plataformas estimula compulsão

Segundo Barreto, elementos como a possibilidade de depósitos instantâneos via Pix, odds que piscam na tela e sons de vitória mesmo em perdas são estratégias deliberadas para manter o usuário engajado. "Esses detalhes não são inocentes; eles são projetados para explorar vieses cognitivos e levar o apostador a tomar decisões impulsivas", explicou o economista em entrevista.

O especialista destaca que a pressão sobre os orçamentos familiares é uma consequência direta desse design. "As famílias de baixa renda são as mais afetadas, pois veem nas apostas uma falsa oportunidade de ganho rápido, mas acabam perdendo recursos essenciais", alerta.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Exemplos internacionais

Outros países já discutem controles mais rígidos sobre as plataformas. No Reino Unido, por exemplo, há propostas para limitar a velocidade das apostas e o valor máximo de depósitos. A Suécia, por sua vez, implementou um sistema de licenciamento que exige que as empresas sigam regras rígidas de design ético.

Barreto defende que o Brasil siga esse caminho. "Não adianta apenas tributar ou criar regras de publicidade. É preciso intervir no produto em si, na forma como ele é oferecido", argumenta.

O que falta na regulação brasileira

Atualmente, o Brasil está em processo de regulamentação das apostas esportivas e jogos online, com a definição de regras para licenciamento, tributação e combate à lavagem de dinheiro. No entanto, para Barreto, essas medidas são insuficientes. "A regulação atual foca no operador, mas não no design da plataforma. É como regular a venda de cigarros sem proibir os aditivos que tornam o produto mais viciante", compara.

O economista sugere que a legislação brasileira inclua exigências como: proibição de depósitos instantâneos, limites de tempo de jogo, alertas obrigatórios sobre riscos de vício e restrições a elementos visuais e sonoros que estimulem apostas repetitivas.

Impacto social e econômico

Dados do Banco Central mostram que as apostas online já movimentam bilhões de reais por mês no Brasil, com crescimento acelerado. Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva indicou que 30% dos apostadores já comprometeram mais de 20% da renda familiar com jogos. "Isso é um alerta. O vício em apostas tem efeitos devastadores na saúde mental e financeira das pessoas", afirma Barreto.

O especialista conclui que a regulação precisa ser encarada como uma questão de saúde pública. "Não se trata de proibir o lazer, mas de garantir que as plataformas não sejam predatórias. O Estado tem o dever de proteger o cidadão contra práticas abusivas", finaliza.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar