O Ministério Público do Trabalho (MPT) afirma que a idosa de 62 anos resgatada em um condomínio de luxo em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, tem direito a uma indenização de aproximadamente R$ 1,5 milhão. A trabalhadora passou cerca de 50 anos prestando serviços para três gerações da mesma família sem receber salário compatível, direitos trabalhistas ou ter autonomia, segundo auditores fiscais do trabalho.
Homenagem nas redes sociais contrasta com exploração
Meses antes da denúncia de trabalho análogo à escravidão vir a público, uma postagem nas redes sociais da família descrevia a doméstica como "nossa mãe preta", "um anjo" e "exemplo de amor incondicional". A reportagem do Fantástico exibiu a mensagem: "Parabéns para a nossa mãe preta, aquela que Deus enviou como um anjo em nossas vidas. É um exemplo de amor incondicional de mãe e agora de avó. Te amo muito, minha preta."
Especialistas ouvidos pelo programa afirmam que esse tipo de relação é comum em casos de exploração de trabalhadoras domésticas. Muitas vezes, as vítimas são tratadas como "parte da família", embora tenham uma rotina completamente diferente dos demais moradores da casa. "O que a gente mais ouve é tratar, chamar essas mulheres de pessoas da família, quando, na verdade, nós observamos que elas têm uma vida completamente diferente dos outros membros da família", disse uma especialista na reportagem. Ela acrescentou que o vínculo afetivo costuma ser construído em torno de uma relação de dependência e servidão.
Três gerações de exploração
Segundo a investigação, a história começou na infância da mãe da trabalhadora. Décadas depois, a filha passou a trabalhar para a geração seguinte da família e, posteriormente, foi transferida para a terceira geração, permanecendo na mesma condição por aproximadamente 50 anos. Os auditores fiscais afirmam que a mulher teria direito a cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações. O caso será encaminhado à Polícia Federal, que poderá apurar eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.
Desdobramentos
A dona da casa onde a mulher foi resgatada, Zaamarah Andrade, foi exonerada na quarta-feira (8). O governo também atualizou a "lista suja" do trabalho escravo, incluindo nomes como o cantor Amado Batista e a montadora BYD. Em outra operação, adultos e menores de idade foram resgatados de situação análoga à escravidão em colheita de mandioca no Paraná.



