O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), admitiu a interlocutores que viajou em um jato particular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso. A informação consta em documentos da Polícia Federal (PF) enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga supostas fraudes ligadas ao Banco Master.
Viagem a Lisboa e exigências de privacidade
Mensagens obtidas pela PF mostram que Vorcaro exigiu um esquema especial de privacidade e segurança durante uma viagem a Lisboa, em junho de 2024. Na ocasião, segundo os investigadores, ele pagou a hospedagem para o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e para Hugo Motta. Em um áudio, Vorcaro pede que nenhuma pessoa não autorizada tenha acesso ao encontro: "Pode ser o Papa, que não pode entrar, ninguém que não esteja na lista".
A PF também identificou uma troca de mensagens em 18 de junho de 2024, na qual Vorcaro pediu ao auxiliar Leo Serrano que organizasse reservas de hospedagem em Lisboa para ele, "Ciro e Hugo". Serrano respondeu que os dois parlamentares teriam suítes júnior reservadas no Four Seasons Hotel Ritz Lisbon, um dos hotéis mais luxuosos da capital portuguesa.
Após a confirmação das reservas, Vorcaro enviou outro áudio demonstrando preocupação com a privacidade. Ele determinou que a área em frente ao restaurante fosse fechada e que houvesse controle de acesso já no saguão dos elevadores. O ex-banqueiro justificou as medidas citando um episódio anterior em Nova York: "A gente não pode deixar acontecer igual aconteceu em Nova York, que venham pessoas, falam que vão pegar um elevador para outro andar e ficam lá no nosso andar. Tem que ficar alguém dentro do elevador, de repente, para evitar isso".
Fatura e valores
A PF encontrou nos e-mails de Vorcaro uma fatura relacionada à viagem a Lisboa, no valor de 3.155,71 euros (cerca de R$ 18,2 mil na cotação da época), referente às diárias no hotel. Para os investigadores, o documento coincide com as mensagens trocadas e reforça a conclusão de que ele pagou a hospedagem dos parlamentares.
Relação com Ciro Nogueira
A PF descreve a relação de Vorcaro com Ciro Nogueira como "funcional e instrumental". Segundo os investigadores, o senador teria recebido uma "mesada" que somou R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, além de ter viagens custeadas em jatos particulares para destinos como Paris, Nova York e Courchevel. Em contrapartida, Nogueira teria apresentado a chamada "Emenda Master" — a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 —, cujo texto foi elaborado pela própria assessoria do banco para beneficiar o fundo garantidor da instituição.
Repercussão
Questionado sobre as informações reveladas pela investigação, Hugo Motta afirmou estar tranquilo e defendeu uma apuração "isenta e imparcial". O presidente da Câmara teria admitido a interlocutores que viajou em avião de Vorcaro. Ciro Nogueira não havia se manifestado sobre o episódio até a divulgação dos documentos analisados pela PF. Atualmente preso em Brasília, Vorcaro já teve duas propostas de colaboração premiada rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).



