Trump e o poder presidencial: debates sobre limites na América
Trump e o poder presidencial: debates sobre limites

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou em entrevista que "não há limites" para o seu poder, um sentimento que parece contrariar o experimento americano iniciado há 250 anos com a independência do país. Críticos apontam que Trump está forçando seu poder além dos antecessores, enquanto apoiadores celebram suas ações como necessárias para mudanças profundas.

Protestos e críticas ao estilo de governo

Milhões de pessoas marcharam em protestos contra Trump nos Estados Unidos e em outros países, portando cartazes com os dizeres "sem reis", "democracia, não monarquia" e "temos uma Constituição, não um rei". Eles afirmam que Trump está forçando seu poder além do que ousaram fazer os antecessores dele. Por exemplo, Trump não pediu autorização do Congresso para iniciar a guerra no Irã e manteve a maior parte dos legisladores no escuro sobre a operação militar na Venezuela, que levou à captura do então presidente Nicolás Maduro. Ele também usou poderes de emergência para contornar a necessidade de legislação para impor tarifas comerciais a todo o mundo, medida posteriormente considerada inconstitucional pela Suprema Corte.

Uso do Departamento de Justiça contra adversários

Trump é acusado de ignorar a tradicional separação entre a Casa Branca e os promotores federais, existente desde o escândalo de Watergate nos anos 1970, ao usar o Departamento de Justiça para investigar e processar pessoas consideradas seus adversários, como o ex-diretor do FBI James Comey. "Não me sinto um rei", declarou Trump recentemente, ao ser questionado sobre os protestos. "Preciso enfrentar o inferno para que as medidas sejam aprovadas."

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Apoio e aprovação entre eleitores

Trump foi eleito com a promessa de criar mudanças profundas em quase todas as áreas da política e do governo. Muitos eleitores que votaram em Trump em 2024 contra o ex-presidente Joe Biden esperavam mudanças radicais em relação à imigração, ao comércio e às relações com aliados americanos históricos. Quatro em cada cinco republicanos apoiam o trabalho desenvolvido por Trump, segundo as pesquisas mais recentes do instituto YouGov. Mas, entre a totalidade dos eleitores americanos, sua aprovação caiu abaixo de 40%, patamar significativamente inferior ao do início do segundo mandato.

Perspectivas históricas sobre o poder presidencial

Donald Trump não é o primeiro presidente americano a tentar ampliar seus poderes, segundo o professor de História e assuntos públicos Julian Zelizer, da Universidade de Princeton. Mas ele destaca que não consegue se lembrar de "outro presidente que tenha ido tão longe e que fosse tão apaixonado pelo poder". Joshua Treviño, diretor do centro de estudos conservador America First Policy Institute, alerta para não confundirmos a imagem cuidadosamente elaborada de Trump com a expansão dos poderes da presidência. "É fácil confundir a estética com a substância do presidente Trump", segundo ele. Treviño cita Franklin D. Roosevelt e Richard Nixon como presidentes do passado que tentaram ampliar os poderes do Executivo. "Eu rejeitaria veementemente a ideia de que Donald Trump estaria fazendo algo qualitativamente único na história americana", destaca ele.

Debates entre os pais fundadores

Os limites exatos do poder de um único político geram debates acalorados há muito tempo nos Estados Unidos. Já no século 18, os pais fundadores do país se preocuparam com a excessiva concentração de poder nas mãos de um único chefe de Estado. Alguns queriam um comitê executivo para governar o país, em vez de um presidente; outros defendiam a concessão de mais poderes. "Você tem medo do único e eu, dos poucos", escreveu o segundo presidente americano, John Adams, ao terceiro mandatário, Thomas Jefferson. "Estamos em perfeito acordo de que os muitos devem ter representação completa, justa e perfeita. Você está apreensivo com a monarquia; eu, com a aristocracia. Por isso, eu teria concedido mais poder ao presidente e menos ao Senado", explicou Adams em 1787. Em um dado momento, os pais fundadores chegaram a considerar títulos como "Sua Alteza", "Sua Excelência" ou "Sua Majestade Eleita", e até pensaram em chamá-lo de "Sua Grandeza".

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Reações de cidadãos comuns

Lorraine Ross, comemorando seu 60° aniversário na Taverna Middleton, em Annapolis, Maryland, local histórico frequentado por George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, diz que também deseja celebrar o aniversário dos Estados Unidos, mas está preocupada com o futuro do país. "Não vou sair por aí, correndo e dizendo 'viva, EUA, estamos livres'", diz ela. Ross afirma estar particularmente preocupada com os cortes da assistência financeira às famílias carentes e crianças com necessidades especiais. Ela demonstra sua irritação com o Congresso, por "simplesmente deixar [Trump] fora de controle, ignorando todas as leis" que restringiram o comportamento dos presidentes americanos no passado. John Knox, de Atlanta, Geórgia, conta que não quer ficar preso à política em torno do atual presidente. Para ele, se as pessoas discordarem de Trump, o momento para expressar sua insatisfação são as eleições de meio de mandato, em novembro, não durante as comemorações do dia 4 de julho.

Visita ao Monte Rushmore e apoio de motociclistas

Em Keystone, Dakota do Sul, Trump passou a véspera das comemorações dos 250 anos da independência americana em visita ao Monte Rushmore, onde os rostos de quatro presidentes foram esculpidos em granito. Trump foi objeto de memes que o colocaram na montanha, ao lado dos ex-presidentes George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt. Muitos dos seus apoiadores aprovam esta ideia, e existe até um projeto de lei no Congresso americano para que Trump seja acrescentado àquele monumento icônico. Terry Davis e Tim Burke, parte de um grupo de velhos amigos que viajam entre parques nacionais, tentaram sem sucesso conseguir ingressos para assistir aos fogos de artifício do presidente. Perguntado se consegue imaginar o rosto de Trump acrescentado ao monumento, Davis, de 72 anos, responde que Trump deveria ser o maior rosto, no centro e na frente do monumento. "Nunca fiquei tão entusiasmado com nenhum outro presidente no passado, até que ele tomou as rédeas deste país", afirma ele. Os motociclistas destacam o status de outsider de Trump e estão felizes por verem o presidente usar seus poderes para enfrentar os democratas e um governo federal que consideram muito invasivo. "Muito tempo depois que ele deixar a presidência, daqui a 20 ou 30 anos, acredito que os historiadores irão dizer que ele foi um dos maiores presidentes da história do nosso país, por tudo o que ele fez pela nação", afirma Burke.

Consequências a longo prazo do poder presidencial

O que o presidente americano faz com seus poderes não traz impactos apenas para os cidadãos atuais do país. Ele pode definir também como os futuros presidentes farão uso do mesmo poder. Para Julian Zelizer, "cada capítulo da expansão do poder presidencial traz consequências a longo prazo". "Ele cria precedentes reais até então inexistentes, que os futuros presidentes poderão utilizar. E também alimenta um processo de normalização, que faz com que tudo simplesmente passe a fazer parte daquilo que esperamos que os presidentes façam." O modelo do presidente americano foi estabelecido em 1789, quando o país deu posse a George Washington como o primeiro mandatário. No seu discurso de posse, Washington pareceu contido em relação ao poder que recebeu. Ele afirmou que um líder "deve ser particularmente consciente das suas próprias deficiências". É difícil imaginar Trump, que se autodeclarou "o maior presidente da história", expressando um sentimento similar.