O Partido Novo oficializou nesta segunda-feira (27) a candidatura de Romeu Zema Neto à Presidência da República, em convenção realizada em Brasília. O ex-governador de Minas Gerais, de 61 anos, renunciou ao mandato em março para concorrer ao Palácio do Planalto. O partido, no entanto, ainda não definiu o nome do vice na chapa e enfrenta dificuldades para consolidar alianças.
Perfil e trajetória empresarial
Nascido em Araxá (MG), em 28 de outubro de 1964, Zema é formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e herdeiro do Grupo Zema, conglomerado fundado há mais de 100 anos pelo imigrante italiano Domingos Zema, bisavô do ex-governador. O grupo possui quase 500 lojas de eletrodomésticos e atua também nos ramos de combustíveis, veículos, imóveis e serviços financeiros. Antes de assumir o comando do grupo no início dos anos 1990, Zema trabalhou como frentista, balconista, estoquista, caixa, vendedor, analista de marketing e gerente.
Ele permaneceu à frente das empresas da família até 2016. Embora afirme não ter se envolvido com política antes de disputar o governo de Minas pela primeira vez, Zema foi filiado ao PL de 1999 a 2018, quando migrou para o Novo e se elegeu como outsider. Na primeira disputa ao Palácio Tiradentes, venceu o experiente Antonio Anastasia. Em 2022, foi reeleito no primeiro turno com 56% dos votos, superando Alexandre Kalil (35%). Naquele ano, declarou ao TSE um patrimônio de quase R$ 130 milhões, figurando entre os 20 candidatos mais ricos.
Discurso antissistema e críticas a ministros do STF
Para a corrida presidencial, Zema mantém o verniz de gestor empresarial, com ênfase na defesa da austeridade fiscal e na redução do tamanho do Estado. Também busca ressaltar o discurso antissistema, com críticas ao bolsonarismo – que ajudou a eleger em 2018 e apoiou em 2022 –, ao Centrão e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em março, protocolou pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes após a divulgação de um contrato milionário do escritório da esposa do magistrado com o Banco Master. Na mesma época, descartou aliança com PP e União Brasil diante da proximidade dos presidentes desses partidos com Daniel Vorcaro, banqueiro do Banco Master. Zema também condenou diálogos de Flávio Bolsonaro com Vorcaro, em que o senador cobrava recursos para o filme "Dark Horse", uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Apesar das críticas ao bolsonarismo, Zema mantém o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como principais adversários. Já declarou que, se não estiver no segundo turno, apoiará um nome que represente o antipetismo. O ex-governador elevou o tom contra o STF após o caso Master, publicando vídeos com inteligência artificial intitulados "Os Intocáveis", que retratam os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli como fantoches. O vídeo gerou reação de Gilmar, que pediu a inclusão de Zema no inquérito das fake news. Em resposta, Zema apresentou um pedido de investigação contra o ministro, arquivado pela PGR.
Vice indefinido e cenário eleitoral
Zema chegou à convenção sem anunciar o vice. O nome mais cotado, Geraldo Rufino, decidiu se lançar ao Senado pelo Podemos em São Paulo. Em entrevista à Rádio Tupi, o ex-governador afirmou que o anúncio ocorrerá até 5 de agosto, prazo final das convenções. "O que nós queremos é alguém ficha limpa. O brasileiro está cansado de ver essa política suja aí. Eu costumo dizer que é Brasília no luxo e o resto do Brasil no lixo", declarou.
Pesquisa Datafolha divulgada em 24 de julho aponta Zema com 3% das intenções de voto no primeiro turno. O Novo aposta em crescimento ao longo da campanha, semelhante ao ocorrido em 2018.
De aliado a adversário da família Bolsonaro
Zema ajudou a eleger Jair Bolsonaro em 2018 e apoiou sua reeleição em 2022. Defendeu a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro e se alinhou a pautas neoliberais caras ao eleitorado bolsonarista. Porém, com a inelegibilidade do ex-presidente, Zema passou a construir candidatura própria e descartou ser vice de Flávio Bolsonaro. O rompimento se consolidou quando criticou publicamente Flávio por sua relação com Vorcaro: "É imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem". A fala gerou reação negativa de quadros do Novo, mas Zema moderou o tom, embora tenha reforçado depois que "quem anda com bandido merece ser visto com cautela".
Promessas e polêmicas no governo de Minas
Levantamento do g1 mostra que, das 12 promessas de Zema em 2022, quatro foram integralmente cumpridas, cinco parcialmente e três não cumpridas, como o reajuste do funcionalismo e a privatização da Cemig. Zema também coleciona polêmicas: ao defender protagonismo do Sul/Sudeste, comparou o país a um produtor rural que dá "tratamento bom para as vaquinhas que produzem pouco", gerando crítica de governadores nordestinos. Em outro episódio, defendeu exigir a conclusão de estudos apenas de homens beneficiários do Bolsa Família, argumentando que "as mulheres têm outras atribuições em casa", o que foi visto como reforço de papéis de gênero. Além disso, publicou vídeo com som de rojões em crítica ao PT, o que exigiu esclarecimento do governo mineiro de que o som foi inserido digitalmente, já que uma lei de Belo Horizonte proíbe artefatos pirotécnicos ruidosos.
Isenção fiscal milionária
Em junho, o governo de Minas concedeu isenção fiscal de R$ 2,2 milhões à Eletrozema S/A, controlada pela família Zema. O ex-governador afirmou que as isenções ocorrem desde 2008 e são legais. O episódio ocorre em meio à campanha, na qual Zema se apresenta como defensor da austeridade fiscal.



