O dia começa antes do sol para milhões de brasileiros. Em pé nos terminais, espremidos nos coletivos, muitos enfrentam horas de deslocamento para chegar ao trabalho. É dessa rotina exaustiva que nasce um sentimento que pode definir o próximo pleito: o ressentimento do eleitor.
Para Preto Zezé, ativista, empresário, escritor e presidente da Central Única das Favelas (Cufa-RJ), a eleição será decidida por quem conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo. Essa é a tese central do seu diagnóstico sobre o humor social e os desafios da comunicação política.
O terminal que virou símbolo
O Terminal Gentileza, no Rio de Janeiro, inaugurado em janeiro de 2023, se tornou um ícone da mobilidade urbana. Na imagem registrada por Fabiano Rocha, da Agência O Globo, um ônibus lotado ilustra a dura realidade do deslocamento diário. Não é difícil imaginar o cansaço estampado nos rostos de quem precisa atravessar a cidade para trabalhar.
É nesse cenário que a discussão sobre políticas públicas ganha concretude. Não se trata apenas de infraestrutura, mas de dignidade. O tempo gasto no trânsito, a falta de conforto, o valor da passagem: tudo isso contribui para a percepção de que o Estado não entrega o básico.
O ressentimento como força política
O ressentimento do eleitor não é um fenômeno novo, mas tem se tornado mais agudo em um contexto de crises econômicas e sociais. Quando as promessas não se materializam, a frustração se acumula. Políticos que ignoram esse sentimento correm o risco de serem penalizados nas urnas.
Para Preto Zezé, é preciso saber onde nasce esse ressentimento para poder responder a ele. A resposta não está em discursos vazios, mas em ações concretas que melhorem a vida de quem acorda cedo para trabalhar. Isso envolve transporte público de qualidade, emprego, renda, saúde e educação.
O que está em jogo
As eleições municipais e nacionais serão marcadas por essa disputa simbólica. Quem conseguir conectar-se com as necessidades reais da população terá vantagem. A sensação de que o sacrifício diário vale a pena é frágil e pode ser destruída por uma única medida impopular.
O desafio é ainda maior em um ambiente de desconfiança generalizada. As redes sociais amplificam as queixas, e as soluções simplistas ganham espaço. Contra isso, é preciso oferecer um projeto de futuro que seja crível e que se baseie em resultados.
A responsabilidade dos líderes
Preto Zezé, à frente da Cufa-RJ, conhece de perto as periferias e as favelas. Sua vivência o autoriza a falar sobre o tema com autoridade. A central que preside desenvolve ações sociais em diversas áreas, do esporte à cultura, e sabe que a transformação não acontece da noite para o dia.
No entanto, a política institucional tem o papel de criar as condições para que essas iniciativas floresçam. É preciso ouvir as comunidades, compreender suas demandas e transformá-las em políticas de Estado. O voto é a ferramenta que o cidadão tem para cobrar esse compromisso.
O impacto da economia no humor do eleitor
A economia também entra nesse cálculo. O custo da cesta básica, o preço dos combustíveis, o valor dos aluguéis: cada item pesa no orçamento e influencia o estado de espírito. Quando o dinheiro não dá para chegar ao fim do mês, a confiança no sistema diminui.
Por isso, propostas que ataquem os problemas estruturais do país – como a reforma tributária e a melhoria dos serviços públicos – precisam ser apresentadas com clareza. O eleitor não quer apenas promessas; quer saber como a vida dele vai melhorar.
Um recado para os candidatos
A mensagem de Preto Zezé também se dirige aos postulantes a cargos eletivos. Campanhas baseadas apenas em ataques ou em promessas irreais tendem a fracassar. O eleitor está atento e exige propostas factíveis. A sensação de pertencimento e de esperança é o que move a participação.
Mais do que vencer a eleição, é preciso governar para todos, especialmente para aqueles que sustentam o país com seu trabalho diário. A foto do ônibus lotado no Terminal Gentileza não é apenas uma imagem: é um convite à reflexão sobre o Brasil que queremos.
A chave da vitória
Nesse sentido, a eleição será um teste para a maturidade democrática. Saber ouvir, reconhecer o ressentimento e transformá-lo em energia positiva de mudança é o caminho. Quem entender isso, terá a chave para a vitória.



