Enquanto a regulamentação da inteligência artificial avança lentamente no Congresso Nacional, empresas, instituições e setores da economia se organizam e criam suas regras para aproveitar a tecnologia de maneira produtiva e segura. E vale observar que, apesar de não existir qualquer coordenação entre eles, essas propostas compartilham vários pontos, o que sugere que suas conclusões podem balizar normas de outras áreas e até uma futura lei sobre o tema.
Estudo mapeia uso de IA em 11 redações brasileiras
Em março, o Ministério da Educação (MEC) publicou seu "Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação", que ampliava propostas então já feitas por dezenas de universidades. Agora esse movimento começa a ser documentado no jornalismo brasileiro. Nesta semana, o centro de pesquisa Reglab publicou o estudo "IA nas Redações: um movimento transformador no jornalismo brasileiro". Ele detalha como essa tecnologia está sendo usada em 11 empresas jornalísticas brasileiras de diferentes portes e naturezas.
"As organizações não criaram políticas de IA por exigência burocrática, e sim porque perceberam que a credibilidade e a contribuição editorial humana são inegociáveis na profissão", explica Marina Gonçalves Garrote, diretora de pesquisa da Reglab. "Só uma estrutura de governança, que indica quem decide, o que se documenta, como a diretriz é atualizada, quem responde pelo erro, garante que a tecnologia seja incorporada sem corroer exatamente isso."
Governança como pilar para preservar o jornalismo
Apesar de o estudo ser focado no jornalismo, seu conteúdo embute conceitos éticos presentes nas grandes discussões do uso da inteligência artificial, como estabelecer que a responsabilidade e as decisões finais sobre como usar suas respostas devem ficar com seres humanos. Segundo o levantamento, os usos mais comuns da IA nas redações concentram-se em tarefas operacionais, como transcrição de entrevistas, tradução, revisão e padronização de textos, correção ortográfica, monitoramento de fontes, análise de grandes volumes de dados e apoio à apuração. Também cresce seu emprego na relação com o público, por meio de chatbots que consultam acervos jornalísticos e ferramentas que ampliam o acesso às informações, sempre com revisão humana como princípio central.
As organizações entrevistadas preservam para os jornalistas as atividades que exigem julgamento editorial, responsabilidade pela informação, investigação, entrevistas, checagem de fatos e decisão final sobre a publicação. A IA é tratada como ferramenta de apoio, enquanto a autoria e a responsabilidade permanecem humanas, justamente para reduzir riscos de erros, alucinações e plágio. "A governança que descrevemos no estudo não é um tema paralelo ao jornalismo: é o mecanismo por meio do qual o setor está protegendo o que torna o jornalismo jornalismo", afirma Garrote.
Desafios e riscos do uso indiscriminado de IA
O planejamento é essencial, mas não elimina as dificuldades inerentes a essa transformação digital. "Esses tropeços não são uma peculiaridade do jornalismo, mas um padrão que se repete em qualquer setor que trate a IA como se ela pudesse responder sozinha", acrescenta a diretora. A pesquisa também identifica nas redações outro ponto comum a negócios de outras naturezas, quando aborda as diferenças na maturidade do uso da IA. As empresas que a usam bem estabelecem políticas internas, treinam seus profissionais, definem responsabilidades, protegem dados e mantêm revisão humana, transformando a IA em vantagem competitiva e até em novos produtos. As que usam mal adotam a tecnologia de forma dispersa, sem critérios claros, ficando mais expostas a erros, riscos de segurança e perda de credibilidade. Já as que optam por não usar a IA correm o risco de perder eficiência, capacidade de inovação e podem ficar em desvantagem diante de concorrentes.
Competências necessárias para o profissional do futuro
O mesmo vale para as competências que passam a ser exigidas dos profissionais, sejam do jornalismo ou de outras áreas. A primeira delas é a capacidade de construir bons comandos para a IA. Mas isso está longe de ser suficiente, pois o letramento digital passa a ser crítico. A verificação da qualidade das respostas dessas plataformas só acontece se o profissional for capaz de identificar erros, vieses e alucinações. Por fim, o sucesso da transformação com a IA depende de a pessoa continuar sendo capaz de executar bem as funções do próprio ofício.
Uma mensagem essencial do estudo é a de que adiar decisões sobre IA também tem custos. Empresas e profissionais não podem esperar por uma regulamentação, o que não quer dizer que o uso dessa tecnologia tão disruptiva possa acontecer de maneira descuidada e irresponsável. A inteligência artificial pede muito mais que novas ferramentas, exigindo novas responsabilidades. Segundo Garrote, "esse tipo de desdobramento só aparece quando a IA é discutida no nível de governança e risco, porque é nesse nível que alguém pergunta 'o que mais isso nos permite ser', em vez de apenas 'o que isso nos permite fazer mais rápido'".
Confiança e responsabilidade humana como norte
A verdadeira transformação desponta, portanto, na capacidade das organizações de estabelecer limites, distribuir responsabilidades e preservar a confiança, enquanto incorporam uma tecnologia que evolui mais rapidamente do que a capacidade dos governos de regulamentá-la. Em vez de gestores se preocuparem até onde a IA pode ir, seu foco deve ser onde a responsabilidade humana não pode faltar.



