Geração Z no trabalho: estereótipos, desafios e o que realmente pensam os jovens
Geração Z no trabalho: o que pensam os jovens sobre os estereótipos

Uma sátira nas redes sociais, criada pelos influenciadores Gabriel Ambrósio e Pedro Lourenço, de 24 anos, retrata o que muitos consideram o comportamento típico da geração Z no ambiente corporativo: atrasos recorrentes, resistência ao presencial e discursos emocionados. O vídeo, embora ficcional, reflete experiências reais e virou um retrato dos conflitos entre jovens e lideranças mais velhas.

O personagem que exagera a realidade

Pedro Lourenço afirma que o personagem é uma hipérbole do que gostaria de fazer se pudesse. "O que mais me magoa nessa empresa é o presencial", diz ele no vídeo, aos prantos. Em seguida, o colega pede que a chefe não fale "mais daquela forma" com eles. A ideia surgiu de episódios vividos por Lourenço no teatro, onde colegas mais velhos criticavam sua pontualidade por não chegar horas antes. "Eles falavam que eu precisava chegar horas antes. Eu perguntava: 'O que eu vou fazer aqui?' Mas a resposta era sempre: 'A vida inteira fizemos assim'", relembra.

Números da geração Z no Brasil

Segundo dados do IBGE, o Brasil tem 47 milhões de pessoas da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010). Desse total, 48% estão economicamente ativos e já participam do mercado de trabalho. Apesar dos rótulos de avessos à hierarquia, resistentes ao presencial e preguiçosos, muitos jovens rejeitam essas caracterizações.

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Jovens negam estereótipos

Lucas Batista, de 22 anos, está há quatro anos na mesma empresa, período considerado longo para a geração Z. Ele trabalha remotamente como designer digital e mora com os pais. "Nossa geração aprendeu o que significa dignidade. Não nos submetemos a qualquer vaga, então gerou o estereótipo de que a gente é preguiçoso, quando o que queremos é ter uma vida digna", afirma.

A estudante de medicina Raiane Gois, de 25 anos, também rejeita a imagem de fazer "corpo mole". "Não concordo, só queremos ambientes mais saudáveis", diz. Ela valoriza qualidade de vida, mas admite que, no início da carreira, pode priorizar uma boa remuneração em detrimento do equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Flexibilidade, salário e saúde mental: a tríade decisiva

Rodrigo Vianna, CEO da Mappit, empresa especializada em vagas de início de carreira, explica que a decisão dos jovens não se resume a um fator isolado, mas a uma tríade: flexibilidade (modelo de trabalho e horários), remuneração e saúde mental. "Eles querem aprender, querem sentir que o trabalho tem impacto e, principalmente, não aceitam a ideia de 'vestir a camisa' se a empresa não mostrar que cuida do time e tem valores alinhados aos deles", ressalta.

Andrea Krug, especialista em liderança, confirma: "Se a empresa é contrária a alguma ideologia que defende, o jovem simplesmente não vai se candidatar. Eles querem fazer a diferença no mundo".

O embate entre gerações: tecnologia e comunicação

O uso de tecnologia é uma das principais faíscas do conflito entre a geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e a Z. Andrea Krug observa que quem está na casa dos 60 anos considera os jovens "mimizentos". Do outro lado, os jovens se intitulam "trainee de aposentado" por terem que ensinar o que consideram básico. Pedro Lourenço exemplifica: "Meu pai dedica muito tempo fazendo um cálculo na mão. Com IA, eu faço rápido e o meu trabalho vira outro".

Letícia Pavim, cofundadora da Rede Pavim, que treina lideranças para lidar com a geração Z, ressalta que os chefes precisam compreender as expectativas dos jovens, mas estes também devem entender o ritmo das organizações. "Todo mundo precisa chegar no meio do caminho", avalia.

Treinamento e recrutamento: o caminho do meio

A Rede Pavim realiza treinamentos com gestores e jovens. Com os líderes, mapeiam conflitos e desafios; com os jovens, abordam inteligência emocional, comportamento corporativo e as "regras não ditas" do trabalho, como atrasos e comunicação. A recomendação é que as empresas sejam transparentes desde a divulgação da vaga até a integração, ouvindo demandas que não comprometam os resultados. "Se isso não vai atrapalhar as entregas nem a dinâmica da empresa, por que não?", questiona Pavim, referindo-se a pedidos de flexibilização para terapia.

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Rodrigo Vianna alerta para o erro de querer ser moderno a qualquer custo: "A gen Z tem um radar muito bom para identificar o que é discurso vazio". Andrea Krug acrescenta que a geração Z tem dificuldade em lidar com frustrações por terem sido "pouco frustrados" — são a "geração filho de pais culpados".

Pedro Lourenço reconhece que a superproteção familiar piora a reputação da geração, mas provoca: "Se você acha que o seu estagiário é mimado ou exigente, vale pensar: o que ele está pedindo que eu sempre quis, mas nunca pude?"