EAD nas licenciaturas: inclusão ou exclusão disfarçada?
EAD nas licenciaturas: inclusão ou exclusão disfarçada?

Uma das críticas mais recorrentes ao aumento da presencialidade na formação docente aponta que a realidade impõe barreiras de acesso ao ensino superior, especialmente em áreas remotas, de modo que a educação a distância (EAD) cumpriria a função de incluir estudantes historicamente excluídos. Esse argumento parte de um problema real: o Brasil ainda não conseguiu garantir acesso amplo e equitativo ao ensino superior presencial.

Mas uma questão precisa ser enfrentada com honestidade: não se corrige um problema criando outro. Se é legítimo ampliar o acesso, também é indispensável perguntar qual a qualidade da formação oferecida e que inclusão ela promove. Há pelo menos duas dimensões dessa discussão que não podem ser ignoradas.

O tamanho do desafio educacional brasileiro

A primeira diz respeito ao tamanho do desafio educacional brasileiro e qual profissional é necessário para enfrentá-lo. De um lado, precisamos promover a aprendizagem adequada de milhões de estudantes que hoje concluem a educação básica com repertório muito aquém do necessário para navegar o mundo de maneira autônoma, crítica e transformadora. Por outro lado, garantir essa aprendizagem se torna cada dia mais complexo diante das mudanças provocadas por tecnologias digitais. Professores precisam lidar com dificuldades de engajamento, fragmentação da atenção, impactos na saúde mental e novos desafios de convivência que atravessam as salas de aula.

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Assim, formar professores exige ampliar oportunidades de aprendizagem, fortalecer experiências práticas, garantir acompanhamento próximo e construir interações qualificadas entre futuros docentes, seus pares e seus formadores. Se queremos que os professores sejam capazes de enfrentar os desafios cognitivos, sociais e emocionais das próximas gerações, precisamos investir ainda mais na qualidade de sua formação.

O perfil dos estudantes das licenciaturas

A segunda dimensão da discussão envolve o perfil dos próprios estudantes das licenciaturas. Um cruzamento de dados do Censo do Ensino Superior e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mostrou que, para estudantes que fizeram o exame, mais da metade dos ingressantes em licenciaturas EAD se encontra nos dois quintis inferiores de desempenho.

Isso significa que muitos licenciandos chegam ao ensino superior com lacunas importantes em sua trajetória escolar. São estudantes que precisam de maior apoio acadêmico, acompanhamento contínuo e interações intensivas com docentes experientes para consolidar conhecimentos básicos e desenvolver o repertório especializado necessário ao exercício da docência. É justamente por isso que a defesa de modelos formativos EAD produz uma contradição profunda. Os estudantes que mais precisam de acompanhamento qualificado acabam submetidos às formações mais empobrecidas em termos de convivência acadêmica, práticas supervisionadas e interação pedagógica.

Nesse sentido, que inclusão está sendo promovida? A ampliação do acesso só se transforma em inclusão real quando vem acompanhada de condições efetivas de aprendizagem e desenvolvimento profissional. Caso contrário, corre-se o risco de produzir uma inclusão apenas formal, sem a preparação para o exercício da profissão.

Resultados do Enade reforçam o alerta

Os resultados mais recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) das Licenciaturas, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), reforçam esse ponto. Mais da metade dos estudantes formados em cursos EAD não alcançou sequer o nível considerado básico no exame, patamar definido pelo próprio Inep como mínimo esperado para o exercício da docência.

O dado é grave porque revela um paradoxo: estudantes ingressam no ensino superior buscando ampliar suas oportunidades, investem anos de suas vidas e recursos financeiros, mas concluem o curso sem dominar conhecimentos elementares para a profissão que irão exercer. Isso não representa inclusão plena. Representa, muitas vezes, a substituição da exclusão de acesso por outra forma de exclusão: a das oportunidades reais de desenvolvimento profissional e de inserção qualificada no mundo do trabalho.

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Mais grave ainda: quando esses profissionais chegam às escolas sem a formação necessária, os maiores impactos tendem a recair justamente sobre os territórios mais vulneráveis do País, aqueles que mais necessitam de professores altamente preparados. Não por acaso, análises do Todos Pela Educação mostram que os cursos com piores resultados concentram-se justamente nas regiões mais remotas e com menor oferta educacional.

Expansão não pode sacrificar a qualidade

Por isso, não parece razoável enfrentar um problema tão complexo olhando apenas para a dimensão do acesso. A expansão de vagas é importante, mas ela não pode ocorrer à custa da qualidade da formação oferecida. Se acreditamos que a educação é estratégica para o futuro do País, precisamos reconhecer que não haverá aprendizagem de qualidade sem professores bem formados.

Incluir não é apenas permitir a entrada no ensino superior. Incluir é garantir que os futuros professores tenham condições reais de aprender, se desenvolver e exercer bem a profissão. Nenhum país supera desigualdades educacionais resolvendo um problema enquanto cria outro ainda maior.