Derrota do Brasil para Noruega gera onda de pessimismo e reflexão psicológica
Derrota do Brasil para Noruega gera pessimismo e reflexão

A eliminação precoce do Brasil na Copa do Mundo, com derrota para a Noruega no último domingo (5/7), gerou uma forte repercussão na imprensa internacional e provocou uma onda de pessimismo entre os torcedores brasileiros. Em um país onde o futebol é central na cultura, a campanha, uma das piores da história do torneio, produziu efeitos que vão além do esporte, atingindo o imaginário coletivo.

Redes sociais refletem frustração e descrença

Levantamento da Orbit Data Science, baseado em uma amostra de 7.855 conversas no X, Instagram e TikTok, mostrou que, logo após a derrota, 41% das manifestações eram de descrença total. "Ficha tá caindo aos poucos. Eu nunca vou ver o Brasil ganhar uma Copa do Mundo", escreveu um usuário. "Sinto muito, mas acho que nunca mais vamos ganhar uma Copa do Mundo. A seleção está totalmente despreparada", dizia outra publicação. Em 12% das postagens analisadas, o pessimismo era um pouco menor, mas ainda predominava a sensação de que o hexacampeonato não seria visto pela geração atual. Apenas 17% demonstravam confiança de que a conquista virá já na edição de 2030.

Psicologia explica o pensamento catastrófico

Segundo Sérgio Freire, psicólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), esse tipo de reação é resultado do que a psicologia chama de pensamento catastrófico, combinado ao pensamento dicotômico. "É o tudo ou nada, o hexa ou o nunca mais." Ele explica que, diante de uma frustração intensa, a mente tende a generalizar o momento presente para o futuro, como uma forma de defesa. Autor do livro Playfulness: Trilhas para uma vida resiliente e criativa, o psicólogo Lucas Freire afirma que esse mecanismo faz com que o cérebro projete a dor do presente para o futuro. "O cérebro frustrado estica o presente doloroso até o infinito e aumenta o impacto de determinados eventos e ações. É o mesmo mecanismo que decreta que o fim de um namoro significa o término das formas de amar. Mas logo a pessoa está apaixonada de novo", pondera.

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Viés de negatividade e cultura do imediatismo

A neuropsicóloga Maria Carolina Fontana Antunes, pesquisadora da Universidade Paris Cité, na França, pontua que as manifestações nas redes sociais refletem muito mais o estado emocional do momento do que uma avaliação racional sobre as chances futuras da seleção. "Depois de uma derrota como foi essa ou como foi no 7 a 1 [em 2014], é comum um viés de negatividade e tendemos a superestimar os aspectos negativos. Imaginamos que essa situação vai ser assim para sempre", diz. Esse viés, segundo a pesquisadora, é reforçado pela cultura do imediatismo. "Por isso elas pensam que, porque perdeu agora, vai perder para sempre." Freire relaciona esse comportamento ao que ele chama de "era de desesperança", em que as pessoas perderam a capacidade de esperar. "Tudo chega agora: a compra, a resposta, a íntegra da temporada da série. Um título que talvez leve mais quatro anos é algo que parece intolerável para quem desaprendeu a esperar", diz ele.

Redes sociais amplificam polarização

As redes sociais também amplificam esse fenômeno, favorecendo manifestações polarizadas. "As redes são ambientes com regras próprias de funcionamento, uma dinâmica em que uma fala exagerada rende mais atenção do que a fala ponderada", explica Freire. A cientista de dados Carolina Valle, líder de pesquisas e monitoramento da Orbit, afirma que em todos os monitoramentos realizados pela empresa, a "inflamação emocional do brasileiro" parece quase uniforme. "Pode ser esporte, eleição, reality show, final de novela… Ele tende a desabafar toda a intensidade do dia a dia nessa ocasião de debate geral", descreve. Ela entende que o longo jejum desde o último título — conquistado em 2002 — sedimenta esse pessimismo, mas acredita que em 2030 "o brasileiro vai acreditar de novo". "Vai haver ressalva, aquele orgulho de analista que não quer parecer bobo, mas vai ter fé no hexa. No fundo, o brasileiro chora, diz que não vai mais acreditar, mas quer o sonho. E sonhamos com o hexacampeonato", afirma.

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Lições da derrota: aprender a lidar com perdas

Por outro lado, há aprendizados que ficam. "Na vida adulta a gente pode perder emprego, relações e projetos, e essas perdas têm consequências duras na vida. A derrota no esporte dói de verdade, mas na segunda-feira o mundo continua", afirma Freire. Ele vê em episódios assim oportunidade de "treinar" em "ambiente protegido" a capacidade de sofrer perdas sem que estas desorganizem a vida. Outra lição é evitar tomar decisões definitivas quando se está emocionalmente abalado, ensina Antunes. "Quando a gente está vivenciando um momento de perda, que é importante de ser vivenciado, claro, a gente não pode usar essa emoção como representação da realidade objetiva", analisa. "O tempo é necessário para a administração da perda, para a vivência do luto, antes de qualquer julgamento."

Futebol como espelho social

No caso do futebol, Antunes lembra que ele tem um papel "muito particular" na cultura brasileira, ao representar a identidade, conferir senso de pertencimento e constituir parte da memória afetiva. "Desperta muitas emoções, emoções intensas. E do ponto de vista neuropsicológico, emoções coletivas são contagiosas", contextualiza. "Se milhões de pessoas estão compartilhando o mesmo evento, pelas redes sociais, se reunindo, estando juntas, ocorre uma amplificação emocional. Por isso o clima de euforia quando a Copa começou. E essa frustração geral com a derrota", explica. "O futebol é espelho de muitos comportamentos sociais", afirma Antunes. Para ela, a sociedade contemporânea, imediatista, tende a interpretar as quedas como fracasso definitivo. "Esquece-se que as quedas fazem parte de todas as jornadas de vida. Precisamos olhar para o futebol e entender seu processo de altos e baixos e, o mais importante, aprender com isso."