Quando o mundo lembra os 90 anos do início da Guerra Civil Espanhola, uma história pouco contada vem à tona na coluna de Bernardo Mello Franco, no GLOBO. Trata-se do catarinense Alberto Amílcar Besouchet, brasileiro que se alistou nas Brigadas Internacionais para defender a República contra o golpe de Francisco Franco e que acabou executado por stalinistas. O registro visual que ilustra o caso é uma foto do acervo pessoal de Nélie Sá Pereira, reproduzida pela newsletter Pasmado, que resgatou a memória do combatente.
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) mobilizou milhares de voluntários de vários países nas Brigadas Internacionais. O conflito foi, ao mesmo tempo, uma luta entre republicanismo e fascismo, e um campo de disputas internas entre as diferentes correntes da esquerda. Nesse cenário, a repressão liderada por agentes stalinistas atingiu dissidentes, inclusive aqueles que haviam pego em armas contra Franco. Alberto Amílcar Besouchet está entre essas vítimas.
O catarinense nas Brigadas Internacionais
Natural de Santa Catarina, Alberto Amílcar Besouchet integrou as fileiras das Brigadas Internacionais, unidades formadas por voluntários estrangeiros que lutaram ao lado do governo republicano. A informação é recuperada pela newsletter Pasmado, que localizou o registro fotográfico do brasileiro e tratou de reconstituir sua trajetória. Segundo o material reproduzido na coluna, Besouchet morreu durante o conflito, após ser executado por stalinistas.
Os detalhes sobre a vida do catarinense são escassos. Não há muitos registros sobre sua atuação antes da ida à Espanha nem sobre as circunstâncias exatas de sua execução. Mas a fotografia, guardada no acervo pessoal de Nélie Sá Pereira, preserva o rosto de um dos muitos estrangeiros que transformaram o sonho de derrotar o fascismo em decisão concreta.
O contexto das execuções na zona republicana
A execução de Besouchet por stalinistas não foi um caso isolado. Durante a Guerra Civil Espanhola, a União Soviética exerceu forte influência no campo republicano. Por meio do NKVD e da Internacional Comunista, agentes moscovitas perseguiram militantes de organizações como o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) e anarquistas da CNT-FAI, além de dissidentes do próprio Partido Comunista. Muitos foram presos, torturados e mortos em porões improvisados, sob a acusação de serem "trotskistas" ou "fascistas encobertos".
Brasileiros que se engajaram na guerra também passaram por esse drama. A história de Besouchet se soma à de outros voluntários latino-americanos que, após sobreviverem aos combates contra as tropas de Franco, foram vítimas da violência política perpetrada por seus próprios aliados.
Um mártir brasileiro
O resgate da memória de Alberto Amílcar Besouchet ocorre em um momento simbólico: os 90 anos do início da Guerra Civil Espanhola, celebrados neste ano. A data reaviva o interesse pelo conflito que antecedeu a Segunda Guerra Mundial e expôs as tensões ideológicas que marcariam o século XX.
Ao lembrar de Besouchet, a coluna de Bernardo Mello Franco contribui para tirar do esquecimento um brasileiro que deu a vida em terra estrangeira. Sua história, recuperada pela newsletter Pasmado e pela fotografia do acervo de Nélie Sá Pereira, é também um alerta sobre as nuances trágicas de uma guerra em que as alianças podiam se transformar em sentenças de morte.
O legado da memória
A trajetória do catarinense levanta questões sobre como a história é contada. Por muito tempo, o papel dos voluntários brasileiros na Guerra Civil Espanhola permaneceu invisível. Iniciativas como a da newsletter Pasmado ajudam a recompor esse mosaico, dando nomes e rostos a homens e mulheres que, movidos por convicção, enfrentaram um dos conflitos mais brutais do século passado.
O episódio envolvendo Alberto Amílcar Besouchet é um capítulo doloroso. Morto não pelas balas do inimigo franquista, mas pela repressão interna no campo em que escolheu lutar, ele representa as contradições de uma guerra que misturou heroísmo e intolerância. No aniversário de 90 anos do conflito, sua memória permanece como um convite à reflexão sobre os limites da militância e os custos humanos das disputas ideológicas.



