Em 5 de novembro de 1897, o presidente Prudente de Morais sofreu um atentado no Rio de Janeiro, no porto do Arsenal de Guerra, enquanto recebia as tropas que retornavam de Canudos. O agressor, soldado Marcelino Bispo, encostou uma garrucha de dois canos no peito do presidente e apertou o gatilho, mas a arma falhou. Prudente, com presença de espírito, afastou a arma com a cartola e recuou. O Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, que saiu em defesa do presidente, morreu após receber quatro golpes de punhal.
Contexto histórico da polarização
O atentado foi planejado pelos jacobinos, republicanos radicais que difundiam fake news e discursos de ódio, pedindo o retorno da ditadura militar nos moldes de Floriano Peixoto, figura oposta a Prudente de Morais, que representava diálogo e diplomacia. Os jornais da época faziam trocadilhos com seu nome, chamando-o de "Prudente e Demorado" ou "Prudente Demais". Os jacobinos o viam como "inimigo do Exército" por ter reduzido o orçamento do Ministério da Guerra pela metade.
O livro "1897 - a República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais", do professor Ely Carneiro de Paiva (Unicamp), resultado de dez anos de pesquisa, explora esse período pouco estudado da história republicana, marcado por ameaças de golpes, ditaduras e escândalos de corrupção.
Crise política e o vice-presidente
A crise começou quando Prudente se afastou por problemas de saúde e seu vice, Manoel Vitorino, assumiu interinamente. Vitorino, que esperava permanecer no poder, aliou-se aos jacobinos, trocou o ministério e inaugurou o Palácio do Catete com uma festa monumental. Foi durante sua interinidade que estourou a revolta de Canudos. Para conquistar a opinião pública, a imprensa criou a versão de que Canudos era um movimento monarquista apoiado pelo Conde D'Eu e Princesa Isabel.
Recuperado da cirurgia, Prudente retomou o governo sem avisar o vice, gerando grande mágoa em Vitorino, que passou a atacá-lo com discursos violentos, conclamando jacobinos e militares à revolta.
Consequências do atentado
No julgamento, cinco deputados e dois senadores foram acusados, entre eles Manoel Vitorino e o presidente do Partido Republicano Federal, Francisco Glicério, mas ambos foram excluídos após o Supremo perder competência. O legado do atentado foi a mudança nos rumos políticos: Prudente conseguiu eleger Campos Sales, que criou a Política dos Governadores, vigente até 1930.
O livro também aborda a teoria do darwinismo social da época. O ministro Joaquim Murtinho afirmou que "o Brasil não deverá igualar o progresso dos Estados Unidos, pois o sucesso americano se deve ao fato de se tratar de um povo de raça superior". O governador de São Paulo, Bernardino de Campos, disse que "se os estados do Norte e Nordeste querem gozar dos mesmos benefícios fiscais, eles devem seguir o exemplo paulista e trabalhar duro".
Além da política, o livro retrata a vida social do Rio de Janeiro no final do século XIX, incluindo a inauguração do Palácio do Catete e a história do "fantasma das Laranjeiras".



