Crise hídrica na Jordânia: escassez de água e dessalinização como solução
Crise hídrica na Jordânia: escassez e dessalinização

A escassez de água na Jordânia é um dos maiores desafios do país, que se destaca pela resiliência diante de adversidades. Além das nove tentativas frustradas de disputar a Copa do Mundo, que se encerraram em 2026 com a primeira participação da seleção, a população enfrenta diariamente o racionamento de água. O país é considerado um dos mais áridos do mundo, ocupando o segundo lugar em escassez hídrica segundo algumas classificações.

De acordo com o Unicef, cada jordaniano tem acesso a apenas 61 metros cúbicos de água por ano – cerca de 12% dos 500 metros cúbicos mínimos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), caracterizando uma situação de escassez absoluta.

Causas da falta de água na Jordânia

Luis Antonio Bittar, professor titular do Departamento de Geografia da USP e especialista em recursos naturais, explica que as principais causas são climáticas e geográficas:

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Fatores climáticos

Mais de 90% da chuva que cai no país evapora antes de infiltrar e recarregar os aquíferos. As mudanças climáticas agravam o problema: o aumento das temperaturas eleva a taxa de evaporação, não só da chuva, mas também dos reservatórios superficiais.

Fatores geográficos

Cerca de 80% do território é composto por terras áridas e desérticas, o que resulta em altíssima evaporação. Além disso, disputas geopolíticas agravam a escassez. A Jordânia compartilha o rio Jordão com Israel e o rio Yarmouk com a Síria, e o controle militar e político dessas fontes limita drasticamente o acesso do país a essas águas.

A chegada de refugiados – da Palestina ocupada, do Iraque e, mais recentemente, da Síria – pressiona ainda mais a infraestrutura hídrica. O crescimento demográfico rápido reduziu a disponibilidade de água por habitante.

Consequências para a população

Em um cenário de escassez absoluta segundo a ONU, os impactos são diários. O professor Bittar, que visitou a Jordânia três vezes, relata que o racionamento é constante: na maioria das áreas urbanas, as casas recebem água canalizada uma vez por semana; em regiões rurais, a cada duas ou três semanas.

Muitas residências possuem cisternas para armazenar água no dia do abastecimento. Quando o volume acaba antes do reabastecimento, os moradores recorrem a caminhões-pipa privados, o que pesa no orçamento familiar.

Dessalinização como solução

Apesar de a Jordânia não ser um país rico como as nações do Golfo Pérsico (Emirados Árabes, Omã, Kuwait, Catar e Bahrein), a usina de dessalinização é a saída mais viável. As fontes de água doce naturais – rios, aquíferos e lençóis – já estão muito aquém da demanda e tendem a diminuir com a aceleração da evaporação.

“A vantagem da dessalinização é que ela não depende de condições climáticas nem de disputas geopolíticas por rios transfronteiriços; basta ter acesso ao mar”, explica Bittar.

Na usina da Jordânia, a água do Mar Vermelho será coletada em Aqaba, no sudoeste do país, dessalinizada e bombeada por mais de 400 km até a capital Amã. Embora o custo de operação tenha diminuído e a necessidade de energia elétrica tenha se reduzido, a usina demora a ficar operacional. A previsão é que as obras sejam concluídas em 2030, quando deverá suprir cerca de 40% da necessidade de abastecimento.

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