A Rússia lançou um novo ataque contra Kiev, capital da Ucrânia, enquanto avança a construção da primeira ponte rodoviária entre a Rússia e a Coreia do Norte, gerando preocupação em autoridades ucranianas. Embora Moscou e Pyongyang apresentem o projeto como uma iniciativa para ampliar o comércio e o turismo, analistas e autoridades ucranianas temem que a nova ligação facilite o transporte de equipamentos militares, tropas e suprimentos usados na guerra.
Detalhes da obra e ligação terrestre
A ponte atravessa o rio Tumen, conectando Khasan, na Rússia, a Tumangang, na Coreia do Norte. Até agora, a comunicação terrestre entre os dois países dependia principalmente da Ponte da Amizade, uma conexão ferroviária inaugurada em 1959, que fica próxima à nova estrutura. Imagens de satélite indicam que a estrutura principal da nova ponte já foi concluída. A Coreia do Norte terminou a maioria das instalações fronteiriças, enquanto a Rússia ainda finaliza obras de apoio, incluindo postos de controle alfandegário.
Em abril, Pyongyang anunciou a inauguração para 19 de junho, mas a solenidade foi adiada devido a atrasos do lado russo. Uma nova data não foi revelada. Esse cronograma incerto aumenta a apreensão em Kiev, que vê na conclusão da obra um risco iminente de intensificação logística militar adversária.
Temor de nova rota logística
Segundo o jornal britânico The Guardian, as preocupações da Ucrânia ganharam força após uma investigação da organização ucraniana de direitos humanos Truth Hounds. O estudo revelou que a ponte teria valor estratégico limitado para o comércio, mas poderia servir como corredor logístico militar entre os dois aliados. Isso porque o transporte rodoviário é mais difícil de monitorar por satélite do que o ferroviário.
Caminhões podem utilizar diferentes rotas e realizar operações de carga e descarga mais rapidamente, reduzindo a capacidade de serviços de inteligência ocidentais acompanharem movimentações militares. "O transporte rodoviário dificulta o monitoramento contínuo por satélite, dando mais flexibilidade às operações", afirmou um analista da Truth Hounds, sob condição de anonimato.
O tema ganhou ainda mais relevância após declarações do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de que Moscou espera receber dezenas de milhares de militares norte-coreanos adicionais para apoiar seu esforço de guerra. A Coreia do Norte já enviou soldados e armamentos à Rússia, segundo informações divulgadas pela Ucrânia, Coreia do Sul e governos ocidentais.
Moscou fala em comércio, analistas questionam
A Rússia rejeita as suspeitas e afirma que a ponte tem fins econômicos. O ministro dos Transportes russo, Andrei Nikitin, afirmou que a nova passagem "fortalecerá os laços comerciais e melhorará a logística entre os dois países". Analistas, porém, questionam essa justificativa. O comércio bilateral oficial, que movimentou apenas US$ 34 milhões em 2024, continua relativamente pequeno para justificar um projeto avaliado em mais de US$ 100 milhões.
Além disso, o turismo internacional na Coreia do Norte permanece fortemente controlado pelas autoridades do país. Em 2025, apenas 10 mil russos visitaram a Coreia do Norte, número que parece insuficiente para demandar uma nova ponte rodoviária com capacidade de tráfego significativo. "Os números de comércio e turismo não sustentam um investimento desse porte", destacou um especialista em relações internacionais citado pela Truth Hounds.
Contexto estratégico e parceria crescente
A construção da ponte foi acordada durante a visita do presidente russo, Vladimir Putin, a Pyongyang, em 2024, em meio ao aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países. Desde então, a cooperação entre Moscou e Pyongyang vem sendo acompanhada de perto pela Ucrânia e por aliados ocidentais, que veem a aproximação como um fator capaz de prolongar o conflito. O novo ataque russo a Kiev, que ocorre simultaneamente ao avanço das obras, reforça a percepção de que a Rússia busca consolidar aliados logísticos para sustentar sua ofensiva.



