A Venezuela registrou um novo tremor de terra nesta segunda-feira (29), cinco dias após o duplo terremoto que deixou mais de 1,5 mil mortos no país. O abalo ocorre enquanto equipes de resgate locais e internacionais correm contra o tempo para retirar sobreviventes dos escombros. De acordo com estimativa da ONU, há ainda cerca de 50 mil pessoas desaparecidas.
Chegada de reforços internacionais e desafios nas buscas
A Venezuela recebeu mais de 1.000 socorristas estrangeiros para ajudar nas operações. As primeiras 48 a 72 horas após um desastre natural são cruciais para os esforços de resgate, e especialistas acreditam que, após esse prazo, a tarefa se transforma basicamente na recuperação de cadáveres. Mesmo assim, os socorristas salvaram 33 sobreviventes no domingo, segundo informou o governo.
As operações são complexas e exigem trabalho manual, dificultadas pelo calor, segundo relatos de socorristas. Quem acompanha de perto os esforços diz que o cheiro de corpos em decomposição é cada vez mais intenso. Apesar disso, há esperança de mais sobreviventes, embora especialistas afirmem que as primeiras 72 horas após desastres naturais definem a estreita janela para resgates.
Voluntários e civis lideram resgates em meio à frustração
Mesmo com chances diminutas de encontrar sobreviventes e crescente frustração da população com a resposta do governo, voluntários continuam trabalhos incessantes. "Todos dizem que não há mais ninguém, mas continuamos aqui. Vamos ver se ainda dá para tirar mais alguém", afirmou à AFP Eduardo Cardozo, trabalhador rural que viajou para ajudar como voluntário em Tucacas, na costa, quase 200 km a leste de Caracas.
"O mais difícil era quando sentíamos esperança nos túneis onde entrávamos, rastejando, tirando escombros, fazendo um trabalho de coração, com muita fé, e quando chegávamos às pessoas, encontrávamos elas sem vida", contou Luis Salas, outro voluntário, à AFP.
La Guaira: epicentro da devastação e chegada de missões internacionais
Em La Guaira, estado vizinho à capital Caracas e a área mais atingida, missões internacionais de resgate chegaram em massa no domingo. Mais de 770 edifícios desmoronaram parcial ou totalmente, incluindo prédios residenciais, comerciais e dezenas de hospitais. O impacto dos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram o país na quarta-feira afetou até 6,8 milhões dos quase 30 milhões de habitantes da Venezuela, avalia a ONU.
O risco de novos danos permanece, já que tremores secundários continuam a atingir o país. Abalos de magnitude 4,2 e 4,5 ocorreram na manhã de domingo.
Resgate de pai e filho emociona; família continua luta
No domingo, em La Guaira, uma multidão se reuniu ao redor de uma montanha de escombros enquanto equipes de resgate dos Estados Unidos, da França e da Venezuela retiravam um homem e seu filho de uma fenda no concreto, cobertos de poeira e quase sem reação. Eles foram colocados sobre uma lona preta e conduzidos cuidadosamente até uma ambulância para receber hidratação intravenosa. O momento foi marcado por alívio e aplausos.
Em outra parte do estado, Helen Guedez e sua mãe estavam em choque. Segundo a AP, elas passaram dias tentando salvar seu pai, Jesús, do apartamento onde estavam. Equipes de resgate americanas inspecionaram o prédio e confirmaram que o homem ainda estava vivo sob os escombros, mas disseram que a estrutura era instável demais para entrar. Guedez disse que continuaria tentando resgatar o pai com voluntários civis e mineradores locais. "Não vamos desistir", afirmou à AP. "O restante da equipe está disposto a continuar. Eles sabem que há outra maneira de retirá-lo e disseram que vão continuar trabalhando até o fim."
Saques e desafios políticos
Enquanto as operações de resgate continuam em ritmo intenso, episódios de saques atingiram La Guaira, grande parte da qual está em ruínas. Farmácias, supermercados e outros estabelecimentos foram saqueados, disseram moradores, alguns dos quais reclamaram da lentidão e da escassez da ajuda oficial. O governo informou que mais de 14 mil militares e policiais estão patrulhando o estado, onde o acesso está bloqueado e autorizações especiais são necessárias para entrar.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, há quase seis meses no cargo após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro, afirmou que os trabalhos de busca "não se suspendem" e que os resgatistas internacionais devolveram a "esperança". Rodríguez disse ter criado uma comissão para avaliar danos às moradias e verificar se é seguro o retorno dos moradores às áreas atingidas, ressaltando que a busca por sobreviventes continuará.
Impacto econômico e humanitário
A tragédia representa um desafio significativo para Rodríguez. O governo americano tem desempenhado um papel cada vez mais forte na definição do futuro do país, enquanto a Venezuela vive uma situação de desordem econômica há mais de uma década. "Há interferência política dos Estados Unidos, a incompetência operacional de um governo que levou o país a uma crise humanitária complexa e, de repente, um terremoto em um lugar que carece de capital humano e recursos imediatos para lidar com a situação", disse Ronal Rodríguez, pesquisador do Observatório Venezuelano da Universidade do Rosário, à AP.
Os piores terremotos na Venezuela em mais de um século ocorreram após mais de uma década de colapso econômico em um país rico em petróleo. A crise enfraqueceu hospitais e serviços públicos, levando milhões de pessoas a deixar o país. As Nações Unidas estimaram os danos materiais em 6,7 bilhões de dólares, o equivalente a cerca de 6% do PIB venezuelano. Amy Pope, diretora-geral da Organização Internacional para Migrações (OIM), alertou que o deslocamento de venezuelanos deve aumentar, já que a crise já levou 8 milhões de pessoas a migrar na última década.



