Acordo EUA-Irã gera dúvidas; trégua de 60 dias é anunciada
Acordo EUA-Irã: trégua de 60 dias gera dúvidas

Donald Trump anuncia um acordo com o Irã que ainda terá negociação pelos próximos 60 dias. O Estreito de Ormuz será gradualmente desobstruído. Trump aprendeu com Lula: narrativas são o que interessa, o resto não tem pressa. A única certeza, mesmo, é de que tudo são dúvidas.

Reações e análises

Há quatro longos anos, Vladimir Putin ordenou a criminosa e injustificada invasão da Ucrânia pelo exército russo, em nome de seu tresloucado sonho de reconstrução da Grande Rússia de idos tempos, na vã ilusão de que, em poucos dias, tomaria boa parte do território, como fizera em 2014 com a anexação da Crimeia. Há cerca de quatro meses, o fanfarrão Donald Trump declarou guerra ao Irã, na vã ilusão de que, em poucos dias, conseguiria neutralizar o arsenal de urânio enriquecido para a confecção de armas atômicas, debilitaria a forte Guarda Revolucionária, poria fim às milícias terroristas apoiadas e financiadas por Teerã, derrubaria o regime teocrático xiita e destituiria do poder o supremo aiatolá Khamenei. Como se vê, nenhum dos dois mandatários obteve pleno êxito em suas arremetidas, que custaram, até agora, milhares de vidas, entre militares e civis, bilhões de dólares e a perda de reputação dos até então poderosos e temidos exércitos. Trump, com seu costumeiro perfil triunfalista, acaba de anunciar aos quatro ventos um acordo de cessar-fogo com a nação persa – na verdade, uma trégua de apenas 60 dias —, quando as partes voltarão à mesa de negociações para seguir procurando acertar as muitas pontas descosturadas que ainda impedem a declaração do fim definitivo da guerra. Nos dois casos, parafraseando o genial Garrincha, eterno camisa sete da seleção, faltou combinar com os adversários. Que papelão!

Expectativas e críticas

Semana sim, semana sim, temos um acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Semana sim, semana sim, temos o desrespeito ao acordo. Irã e EUA chegam a acordo de paz para cessar-fogo imediato e reabertura total do estreito de Ormuz. “Pacto será assinado sexta-feira, na Suíça, segundo mediador paquistanês; Donald Trump ordena remoção imediata do bloqueio naval; iranianos dizem que acordo encerra a guerra imediatamente.” Excelente notícia. Nenhuma guerra deveria acontecer, por causar prejuízos até mesmo a quem não está diretamente envolvido nela. O conflito só ocorreu por causa da arrogância e da prepotência de Donald Trump, que não contava com a resiliência do Irã nem com a queda de sua popularidade. Espera-se agora que a guerra entre Rússia e Ucrânia, outro conflito estúpido iniciado pelo também arrogante e prepotente Vladimir Putin, termine o mais rápido possível.

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Outros temas em destaque

O estudo objeto da matéria sobre a pretensa falta de semáforos para pedestres em São Paulo é um desserviço à justa causa da prioridade aos pedestres. Semáforo é um dispositivo que alterna no tempo o direito de passagem num conflito de interesses entre veículos e destes com pedestres por um mesmo espaço da via. Pouco semáforo não significa má gestão – ao contrário, numa cidade ideal não existiriam semáforos. A sua colocação depende de fatores que nada têm a ver com sua concentração em relação à quantidade de viagens numa região. O determinante para a colocação do semáforo é o volume de pedestres e veículos em conflito, além da configuração física do local. O Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito, em especial o Volume V – Sinalização Semafórica, com suas 313 páginas, é uma exemplar norma técnica que, se corretamente aplicada, é o que fundamenta a prioridade, a segurança de pedestres e as boas políticas públicas a eles voltadas.

Curioso o fato de a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) considerar o histórico de sinistros para a instalação de semáforos de pedestres. Quantas mortes, quantos casos de invalidez permanente ou de sinistros menores serão necessários para indicar a necessidade? Ainda que proibida, a prática de rope jumping no Viaduto Sumaré, em São Paulo, continua acontecendo e põe em risco não só os praticantes do esporte, mas também os que transitam pela avenida. Ao perceber algo caindo na frente do carro, o motorista se assusta, freia bruscamente ou desvia, podendo ocasionar batidas laterais, atropelamentos, colisões impactantes ou até acidentes graves.

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O editorial O salvamento dos rios de São Paulo tratou de estudo feito pelos técnicos da Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas) sobre a precariedade da disponibilidade hídrica de alguns mananciais que abastecem municípios do Estado onde hoje vivem 2 milhões de pessoas. Mas aqui, na região metropolitana, temos um manancial, o Guarapiranga, que abastece cerca de 4 milhões de habitantes e que está em estado hipertrófico, alterando a qualidade da água e dificultando sobremaneira o seu tratamento, que só é feito à custa de algicidas previamente semeados no corpo da represa. Isso se deve à poluição causada pelo lançamento de esgoto não tratado nos córregos afluentes da represa, o que tem causado, entre outros transtornos, a floração de algas cianofíceas. O Instituto de Engenharia (IE) propôs, em 2015, em workshop em parceria com a Secretaria de Mudanças Climáticas do Município de São Paulo, a adoção de solução emergencial de tratamento em tempo seco dos principais córregos afluentes para remoção de fósforo (maior responsável pela proliferação de algas), enquanto se faz a coleta e o tratamento de esgoto das áreas irregulares da região, empreendimento que demanda muito tempo para concluir.

Política e economia

A recente derrapada do Banco Central (BC) na condução da política monetária expõe o perigo de gerenciar o País olhando apenas para o curto prazo. Na Fórmula 1, o piloto de elite reage à curva imediata, mas mantém os olhos fixos centenas de metros à frente para não estampar o muro. O BC fez o oposto: embalado por um alívio passageiro, iniciou um ciclo de queda de juros ignorando que a pista adiante estava cheia de óleo, cercada por incerteza global e pelo crônico descontrole fiscal interno que Brasília se recusa a resolver. O preço dessa miopia tática é a realidade nua e crua que bate agora à porta: expectativas desancoradas e inflação resistente. Não existe mágica econômica que resista à sabotagem fiscal e à falta de alcance na visão. Enquanto o topo da autarquia tentou agradar ao momento, o mercado tratou de cobrar a conta do erro de cálculo. Decidir sem olhar o horizonte não é estratégia; é apenas sentar e esperar o impacto.

Em O desafio permanente da Previdência – 2, Luiz Carlos Trabuco Cappi destaca bem a rapidez da mudança demográfica e a previsível falta de jovens para trabalhar e contribuir para o INSS. O avanço tecnológico agrava o problema, pois as inovações viabilizam o trabalho autônomo em plataformas, cujos trabalhadores, em sua maioria, não contribuem para a Previdência Social. Ou seja, demografia e tecnologia são duas razões fortes para uma reforma imediata e contínua da Previdência.

No Congresso, até a criminalidade precisa esperar a conveniência eleitoral. Quando a PEC da Segurança tramitava na Câmara, a redução da maioridade penal foi retirada para não desagradar ao governo e evitar obstruções. Agora, às portas da eleição, o tema reaparece com pressa, enquanto a própria PEC segue engavetada no Senado. Não se trata de falta de propostas, mas de excesso de conveniência. Em ano eleitoral, muitos políticos redescobrem a segurança pública, a saúde, a educação e até a responsabilidade fiscal. Multiplicam-se os acenos aos eleitores e as promessas embaladas para consumo imediato. Depois da apuração dos votos, porém, boa parte delas desaparece junto com os discursos inflamados. Talvez a maior reforma política ainda esteja por ser feita: responsabilizar quem promete o que sabe que não pretende cumprir. Afinal, mentir para conquistar votos não deveria ser considerado estratégia eleitoral, mas desrespeito ao eleitor.

Justiça e privilégios

A indignação de um procurador de Justiça expõe o abismo que separa a cúpula do funcionalismo público da realidade salarial dos brasileiros. O pobre procurador do Ministério Público de São Paulo Luiz Roberto Cicogna Faggioni, que com seu salário de R$ 54 mil já pertencia ao grupo dos brasileiros mais ricos do País, superando 99,5% de toda a população, foi rebaixado para o topo da classe A, que equivale a 0,5% dos domicílios do País, recebendo R$ 30 mil. Mesmo assim, o procurador se diz indignado com o Supremo Tribunal Federal, que recentemente cumpriu a lei determinando que os salários no serviço público não ultrapassassem o teto constitucional. Alardeou o procurador: “Ministro ladrão, roubou meu pão”; “ordem ilegal que nos mata não se cumpre”; e “eu não vou conseguir pagar minhas contas”. Acaso Vossa Arrogância já visitou a Favela de Paraisópolis, onde 37% dos moradores ganham entre R$ 900 e R$ 1.800 mensais, ou a de Heliópolis, onde 40% dos moradores têm renda entre R$ 1.200 e R$ 2.500 mensais? O procurador sabe que cerca de 70% dos brasileiros ganham menos de R$ 2.500 por mês? O principal papel do sr. procurador é defender os interesses da sociedade e fiscalizar o cumprimento das leis (mesmo que lhe afetem), e não ficar chorando de barriga cheia.

Está muito bem escrito o editorial publicado pelo Estadão sobre o “grupo de trabalho” formado a pedido do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça. O objetivo da comissão é discutir meios de acabar, definitivamente, com os penduricalhos no Judiciário. Ocorre, contudo, que o mecanismo de controle já existe e está na lei: nenhum servidor público, em tese, pode receber mais do que o teto constitucional baseado no subsídio dos ministros do Supremo. Como a magistratura e os demais integrantes do Judiciário lidam com o ordenamento jurídico diariamente, conhecem melhor do que ninguém as brechas para driblar o regramento padrão. Criam-se, assim, alternativas para turbinar rendimentos, conferindo um tom de legalidade ao que, sob a ótica moral, é flagrantemente questionável. Enquanto isso, o Congresso Nacional mostra-se tão ou mais omisso que as instâncias superiores da Justiça. Prefere fechar os olhos, chancelar novos gastos e dar de ombros para a responsabilidade fiscal – conceito frequentemente esvaziado e usado em discursos apenas para inflar a nobreza das palavras. Diante desse cenário, esse novo grupo de trabalho terá pouco ou nenhum efeito prático. Para resolver o problema, basta o óbvio: seguir a lei.

O Supremo Tribunal Federal do Brasil já é famoso internacionalmente. O ministro Alexandre de Moraes já foi citado na corte norte-americana e na Justiça da Itália – pena que de maneira negativa.

Política social e educação

Há uma realidade política difícil de ignorar: é praticamente impossível disputar uma eleição atacando um programa que se tornou referência na proteção social do País. O Bolsa Família deixou de ser apenas uma política de governo e passou a fazer parte da vida de milhões de brasileiros. Flávio Bolsonaro parece ter compreendido isso. Ainda assim, persistem preconceitos e desinformação sobre o programa. Porém, os fatos mostram que a maioria dos beneficiários recebe o auxílio por necessidade real, e que há mecanismos de fiscalização para coibir irregularidades. Além disso, milhões de pessoas deixam o Bolsa Família ao melhorar sua renda, demonstrando que o programa ajuda a combater a pobreza e promover a inclusão social.

Bárbara Born e Olavo Nogueira Filho trazem uma discussão pertinente em O dilema da formação docente a distância. O ensino a distância (EAD), para quem já possui uma graduação ou outra formação sólida, funciona muito bem de forma complementar. A questão primordial é incentivar a primeira graduação longe do contato tête-à-tête, entre professores e alunos, fundamental para o estabelecimento do espaço social da aprendizagem. Além disso, pouco é discutido acerca da visão apenas mercantilista de boa parte dos cursos em EAD, diretamente relacionados ao seu baixo desempenho. Por fim, vivemos o paradoxo de formar professores em um sistema que tem por princípio financeiro – e não pedagógico – a utilização minimizada de docentes nas disciplinas.

O artigo O dilema da formação docente a distância, de Bárbara Born e Olavo Nogueira Filho, toca em um ponto essencial da educação brasileira: não se resolve um problema criando outro. É evidente que o Brasil precisa ampliar o acesso ao ensino superior, inclusive para quem vive em regiões distantes dos grandes centros. Porém, quando falamos da formação de professores, o acesso não pode ser tratado separadamente da qualidade. Formar professor exige acompanhamento, prática, convivência acadêmica, orientação pedagógica e contato real com os desafios da sala de aula. Quando o futuro professor já chega ao curso com lacunas importantes de aprendizagem e encontra uma formação frágil, sem apoio suficiente, o problema apenas muda de lugar. Também é preciso enfrentar outro ponto: a valorização da carreira docente. Enquanto o professor não tiver salário compatível com a importância de sua função, dificilmente a educação conseguirá atrair, em maior número, jovens com excelente desempenho escolar e grande potencial para seguir essa profissão. A inclusão verdadeira não é apenas permitir a entrada no ensino superior. Inclusão é garantir que esse aluno tenha condições reais de aprender, se desenvolver e sair preparado para exercer uma profissão tão importante. O mais preocupante é que a má formação docente acaba atingindo, justamente, os alunos mais vulneráveis, que mais dependem de professores bem preparados. Assim, a desigualdade se repete dentro da própria escola. Educação de qualidade começa por professores bem formados, bem acompanhados e devidamente valorizados. Sem isso, qualquer política pública corre o risco de ficar bonita no papel, mas fraca na prática.

Esportes e cultura

A seleção brasileira não se renovou. Não há mais Pelé, Amarildo, Bellini, Nilton Santos, Romário, Zizinho, Zito, Zico, Rivellino, Zagallo, Pepe, Garrincha, Gérson e tantos outros craques que deixaram seus legados para o País. Hoje há somente jogadores meia-bomba, salvo poucas exceções. Ninguém para resolver o problema dentro das quatro linhas. Os hinos nacionais são apresentados em gravações desconectadas do canto dos atletas. Onde está a banda militar para apresentar a música sem intermediários não músicos? O povo está artificialmente alegre por conta da mídia, que se esforça para criar um ambiente festivo para o torcedor que sabe que seu time não tem chance de fazer uma bela Copa do Mundo.

O Brasil tem tradições políticas e jurídicas absolutamente reprováveis, mas aparentemente imutáveis, por atenderem a interesses que não são os nacionais. Na seleção, o atual técnico prefere escalar jogadores “experientes”, embora sua experiência seja a de apresentar um futebol pífio e sem resultados positivos. Neste momento de Copa, o futebol vem sendo uma ótima metáfora para os problemas do país. A principal diferença é que, nos centros de poder, há aqueles para quem o time está ganhando, e, por isso, não se mexe nele. Do ponto de vista da plateia, dá tudo no mesmo.

Aos 73 anos de idade e já desobrigado de votar, acredito que, mais dia, menos dia, o Brasil ainda nos levará à bancarrota. Sabe o que é ter vergonha de ser brasileiro, apesar de todas as possibilidades que este país oferece? Eu desisto. Só vou torcer pelo Brasil na Copa do Mundo – e olhe lá.