O presidente Donald Trump segue afirmando que seus índices de aprovação estão em níveis recordes, mas as pesquisas independentes indicam exatamente o contrário. Levantamentos recentes de diferentes institutos mostram que a popularidade do republicano atingiu o ponto mais baixo de seu mandato, com apoio de apenas um terço da população americana. O cenário acende o alerta nas fileiras republicanas faltando poucos meses para as eleições de meio de mandato.
Pesquisas apontam níveis mínimos
Na última pesquisa da CNN, Trump aparece com 34% de aprovação, mesmo índice registrado logo após os ataques de 6 de janeiro de 2021. O levantamento da AP-NORC trouxe 33%, empatando com a pior marca desde 2017. Já a Universidade Quinnipiac apontou 32%, o menor nível já anotado nessa série histórica. Os números contradizem diretamente as afirmações do presidente, que escreveu em sua rede social: “MEUS NÚMEROS REAIS DE PESQUISA ESTÃO NO NÍVEL MAIS ALTO DE TODOS OS TEMPOS”.
O contexto político ajuda a explicar a queda. O impasse no conflito com o Irã e o aumento nos preços da gasolina têm cobrado um preço alto da avaliação presidencial. Segundo analistas, a deterioração ocorre em todas as áreas, inclusive naquelas em que Trump historicamente era mais forte, como economia e imigração. A guerra no Irã, inclusive, já é o conflito americano mais rejeitado desde o início em toda a história das pesquisas de opinião, com eleitores se opondo a ela na proporção de dois para um.
Comparação histórica desfavorável
Os números atuais colocam Trump praticamente como o presidente de segundo mandato mais impopular nesta fase do governo desde os anos 1940. No comparativo histórico, ele perde até para gestões consideradas desgastadas. Enquanto Trump registra índices entre 32% e 34%, Bill Clinton tinha 64% de aprovação nesse mesmo período, Ronald Reagan 61% e Dwight Eisenhower 58%. Mesmo entre os que estavam abaixo de 50% — como Barack Obama (43%), Harry Truman (39%) e George W. Bush (37%) —, todos viram seus partidos perderem cadeiras nas eleições legislativas seguintes.
O único caso pior é o de Richard Nixon, que enfrentava o escândalo de Watergate e renunciou dias depois, com 24% de aprovação. Para Trump, a situação é ainda mais delicada porque os índices negativos são intensos, indicando que eleitores que desaprovam seu governo estão mais motivados a comparecer às urnas. “Essas pessoas vão votar”, alertou Douglas Sosnik, que foi diretor político da Casa Branca no governo Clinton. “E os republicanos que não pertencem ao movimento MAGA não estão motivados a comparecer às urnas.”
Republicanos temem onda democrata
O descontentamento já deixa republicanos inquietos diante da possibilidade de uma onda democrata que retire do partido o controle da Câmara e até do Senado. A avaliação é de que Trump não reage às crises como um presidente convencional, o que complica a estratégia partidária. O estrategista republicano Douglas Heye afirmou que Trump “sempre projetará força, independentemente dos números, e dirá que são falsos de qualquer maneira”. Para ele, a não ser que o presidente “grite e jogue algo em um assessor”, nada deve mudar.
Há, contudo, fatores que podem limitar os danos. O pesquisador republicano Kristen Soltis Anderson observou que a polarização reduziu a variação dos índices de aprovação. “Uma aprovação na casa dos 40% baixos ou até mesmo nos 30% altos não representa a catástrofe política que teria sido há duas ou três décadas”, disse. Ela ressalvou, porém, que índices na casa dos 30% baixos indicam que “partes da coalizão começaram a se desgarrar”. Anderson também apontou que o Partido Democrata não tem uma mensagem clara além de “Trump é ruim”, o que pode ajudar o republicano. Se o cenário “permanecer realmente tão sombrio, isso pode ser suficiente”, concluiu.
Douglas Sosnik acrescentou que as mudanças estruturais na política americana protegem os republicanos. “Acho que a política mudou tanto que é preciso contextualizar a desaprovação de Trump, compará-la à de outros presidentes e analisar como isso afetará os resultados”, disse. “Simplesmente há muito menos estados e distritos competitivos, o que limitará a dimensão da ‘onda azul’.” O redesenho dos distritos eleitorais, reforçado por um redistritamento no meio da década, reduziu o número de distritos genuinamente competitivos, o que pode conter as perdas republicanas.
Trump segue desafiando a realidade
Em vez de ajustar o rumo, Trump aposta em sua própria narrativa. Em junho, durante coletiva de imprensa na cúpula do G7, na França, ele afirmou que “as pesquisas são muito desonestas, assim como muitos repórteres”. Dias depois, garantiu que sua aprovação estava “NOS NÍVEIS MAIS ALTOS DE TODOS OS TEMPOS”. Em 26 de junho, citou uma pesquisa de seus próprios consultores que mostraria 50% e, insatisfeito, acrescentou 15 pontos por conta própria. “Outras pesquisas mostram minha taxa de aprovação em 65%, ou até mais!”, escreveu. Em 12 de julho, declarou “Taxa de aprovação de 59%”, mesmo sem apresentar qualquer levantamento com esses resultados. Em nenhum dos casos ele citou uma pesquisa real com esses números.
Enquanto isso, a Casa Branca defende o histórico do presidente. “Nenhum outro presidente na história fez mais pelos americanos trabalhadores do que o presidente Trump, que trabalha incansavelmente para criar empregos, conter a inflação, tornar a moradia mais acessível, entre outras coisas”, disse o porta-voz Davis Ingle em posicionamento. “O presidente já alcançou progressos históricos não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, e isso é apenas o começo”, completou.
Desafios internos e o futuro
Trump também enfrenta resistência no Capitólio, especialmente em relação ao plano de destinar US$ 1,8 bilhão do dinheiro dos contribuintes a apoiadores que alegam ter sido prejudicados pela administração Biden, e à indicação de Todd Blanche para procurador-geral. Apesar das turbulências, ele investe em projetos de legado, como um novo salão de baile na Casa Branca e um arco do triunfo, ignorando os alertas eleitorais. Heye resume a postura com a filosofia “YOLO” — “You Only Live Once” —, em que o presidente age sem considerar fragilidades políticas. “Isso é parte do motivo pelo qual ele foi reeleito e da razão pela qual é imune a certos escândalos”, concluiu.



