Governo fecha semestre com desemprego baixo e inflação acima da meta
Semestre fecha com desemprego baixo e inflação acima da meta

O governo brasileiro fechou o primeiro semestre com dois indicadores contrastantes: de um lado, o desemprego caiu para 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor nível da série histórica iniciada em 2012; de outro, a prévia da inflação mensal recuou, mas a taxa anual de 4,8% ainda supera o teto da meta de 4,5%. A combinação de mercado de trabalho aquecido e pressão inflacionária cria um dilema para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição.

Desemprego atinge mínima histórica

No trimestre de março a maio, a taxa de desocupação foi de 5,6%, ligeiramente inferior aos 5,8% do período de fevereiro a abril e bem menor que os 6,2% registrados um ano antes. A população desocupada somou 6,1 milhões de pessoas, queda de 9,3% na comparação anual. Já a população ocupada atingiu 102,7 milhões, alta de 0,8% em 12 meses. O nível de ocupação, que mede a proporção de pessoas em idade ativa com trabalho, ficou em 58,6%, avanço de 0,2 ponto percentual no trimestre.

William Kratochwill, analista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), destacou que a relativa estabilidade em relação aos primeiros meses do ano pode ser sazonal, mas a mínima histórica talvez indique uma tendência estrutural de “aquecimento e expansão”.

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Inflação acima da meta desafia política econômica

Apesar do bom desempenho do emprego, a inflação anual de 4,8% supera com folga o centro da meta de 3% e também o teto de tolerância de 4,5%. O governo enfrenta o desafio de conter a alta de preços sem comprometer a recuperação do mercado de trabalho. Se a inflação continuar corroendo o orçamento familiar e distorcendo o gasto público, uma resposta convencional poderia incluir aperto fiscal, mas a proximidade das eleições torna essa medida improvável.

A ação mais provável é a manutenção de juros elevados pelo Banco Central (BC). Atualmente, a taxa Selic está em 14,25% após um corte de 0,25 ponto percentual. Juros altos limitam o crédito e o investimento privado, mas o BC deve manter a cautela diante da incerteza sobre o ajuste das contas públicas.

Atividade econômica modesta e investimento baixo

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% no primeiro trimestre e 2% em 12 meses. O boletim Focus, divulgado na segunda-feira passada, projeta expansão de 1,98% em 2026 e 1,70% em 2027, perto da estimativa do governo. A agropecuária cresceu 7,5% no período de um ano, a indústria 1,3% e os serviços 1,8%.

No entanto, a taxa de investimento em capital físico no primeiro trimestre foi de apenas 16,5% do PIB, abaixo dos 17,6% de um ano antes e muito inferior à média de outras economias emergentes, que frequentemente supera 18%. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), até países desenvolvidos têm investido proporcionalmente mais que o Brasil.

Juros altos travam investimento e crescimento

O crédito caro desestimula o investimento privado em máquinas, equipamentos e infraestrutura. Com a Selic em 14,25% e a taxa real (descontada a inflação) ainda elevada, o BC terá dificuldade para promover novos cortes enquanto houver insegurança sobre o ajuste fiscal. “Crédito mais barato poderia ser um grande facilitador do crescimento da atividade e do emprego produtivo”, mas depende de capital disponível, custo, condições políticas e perspectivas econômicas de médio e longo prazo.

As condições políticas no país são estáveis, sem risco aparente de retrocesso ou contaminação externa. A decisão de investir depende basicamente do custo do dinheiro e do cenário futuro. Enquanto as finanças públicas não forem geridas com mais prudência, os juros devem permanecer altos, limitando o potencial de crescimento.

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