El Niño pode encarecer café, milho, carne e frutas no Brasil
El Niño pode encarecer café, milho, carne e frutas no Brasil

El Niño ameaça safras e pode pressionar inflação dos alimentos no Brasil

O fenômeno climático El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, deve impactar a produção agrícola brasileira e elevar os preços dos alimentos nos supermercados. Economistas consultados pelo g1 apontam que os efeitos já começam a ser sentidos, especialmente em hortaliças, e podem se intensificar em 2027, afetando culturas como café, milho, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz. A pecuária leiteira e de corte também está na mira.

De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 60% de chances de um El Niño muito forte entre novembro e janeiro. “Certamente vai impactar preço dos alimentos. É meio que inevitável, principalmente se afetar as janelas de plantio ou mesmo prejudicar a produção na hora da colheita”, afirma Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global.

Café: safra recorde ameaçada por chuvas irregulares e calor intenso

O café, principal produto de exportação de Varginha (MG), é um dos mais vulneráveis. O El Niño provoca irregularidade nas chuvas, com períodos de estiagem seguidos de precipitações intensas, aumentando o risco de floradas antecipadas e desuniformes. As flores podem ser abortadas ou formar grãos menores. Temperaturas elevadas e perda de água do solo também prejudicam o café arábica, mais sensível e popular no Brasil, podendo reduzir a qualidade do produto.

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Celírio Inácio da Silva, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), explica que o setor iniciou o ano com expectativa de safra recorde, acima de 66 milhões de sacas, mas as chuvas já atrasaram a colheita do café conilon. “Isso vai fazer com que a oferta não seja tão boa quanto se imagina e o mercado internacional, já sabendo que os estoques estão vazios, começa a ter especulações e isso pode fazer com que o preço da matéria-prima vá subir”, afirma. Para o café arábica, a principal preocupação é a produção de 2027: se o El Niño for intenso, a perda pode chegar a 25%.

Milho: produtividade global cai 4% e segunda safra brasileira é a mais afetada

Em anos de El Niño, a produtividade média global de milho recua cerca de 4%, segundo o Itaú BBA, especialmente em regiões tropicais como sudeste Asiático, sul da China e África. No Brasil, o principal impacto é na segunda safra: chuvas irregulares atrasam o plantio da soja no Centro-Oeste, reduzindo a janela ideal para o milho. Glauber Silveira, diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), afirma que produtores optam por diminuir a área plantada ou trocar o grão pelo sorgo. “O que o produtor faz é se arriscar menos”, diz. O excesso de chuva no Sul preocupa mais que a seca no Centro-Oeste, por reduzir a produtividade e aumentar doenças.

Francisco Queiroz, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, acrescenta que a área plantada cresce menos devido a custos mais altos e margens menores. Uma queda na produção do Mato Grosso pode afetar os preços internacionais do milho.

Carne e leite: preço do grão e pastagens escassas encarecem a proteína

Com a alta do milho, ingrediente da ração, a carne deve ficar mais cara em 2027. A criação de animais também sofre com a menor disponibilidade de pastagens por déficit hídrico e seca. Danyella Bonfim, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que isso prejudica a produção de leite e dificulta o ganho de peso dos animais destinados ao abate. O calor excessivo causa estresse nos animais, que passam a comer menos.

Frutas, hortaliças e laranja: podridão, florada abortada e preços em alta

No Sul, chuvas volumosas geram podridão e perda de qualidade em cebola, batata, tomate e cenoura. A maçã pode ser afetada na florada e formação dos frutos, com aparecimento de doenças. A uva gaúcha pode ter queda de produção por excesso de umidade. Em algumas regiões, a redução dos reservatórios dificulta a irrigação, afetando frutas sensíveis como manga, mamão e uva. Por outro lado, o tempo seco no Nordeste favorece melão e melancia irrigados.

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Para a laranja, temperaturas acima da média no cinturão citrícola paulista podem prejudicar a florada (setembro a novembro), causando abortamento de flores e queda de frutos jovens. Wharlhey Nunes, analista do Itaú BBA, afirma que a safra já estava estimada com redução por falta de rentabilidade, menor consumo e doenças. Com o El Niño, a tendência é de safra ainda menor, elevando os preços do suco e diminuindo a qualidade das frutas.

Cana-de-açúcar: chuvas fora de época e estresse hídrico comprometem a moagem

No Centro-Sul, responsável por cerca de 90% da moagem de cana, o fenômeno pode provocar chuvas fora de época, reduzindo a qualidade da matéria-prima e atrasando o acúmulo de sacarose. A colheita pode ocorrer antes do ponto ideal de maturação. Já no Norte e Nordeste, a seca e o calor geram estresse hídrico e térmico, comprometendo o desenvolvimento da planta.

Inflação: Ministério da Fazenda deve revisar projeção para 2026

Por causa do El Niño, o Ministério da Fazenda deve aumentar sua previsão oficial para a inflação de 2026. A expectativa é que os preços subam mais do que o estimado em maio, quando a projeção era de 4,5%. O impacto nos alimentos tende a pressionar o índice de preços ao consumidor.