O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, emitiu um alerta contundente sobre os riscos da dependência de inteligência artificial (IA) de grandes empresas americanas, após os Estados Unidos ordenarem que a Anthropic, criadora do Claude, suspendesse o acesso a dois de seus modelos de IA mais poderosos para usuários estrangeiros.
Bloqueio dos EUA acende alerta no Canadá
Em declaração à imprensa, Carney afirmou que a decisão unilateral dos EUA evidencia a vulnerabilidade de países que dependem exclusivamente de tecnologias controladas por big techs americanas. "O bloqueio aos modelos da Anthropic é um sinal claro de que precisamos diversificar nossas fontes de inovação e não ficar reféns de decisões tomadas em Washington", disse o premiê.
A Anthropic, empresa sediada em São Francisco, havia lançado recentemente duas versões aprimoradas de seu assistente de IA Claude, com capacidades avançadas de raciocínio e geração de código. No entanto, o governo americano, citando preocupações de segurança nacional, exigiu a suspensão imediata do acesso a esses modelos fora dos Estados Unidos, afetando usuários no Canadá e em outros países.
Comparação com a crise de 2008
Carney, que foi presidente do Banco Central do Canadá e do Banco da Inglaterra durante a crise financeira global, traçou um paralelo entre a atual dependência tecnológica e a crise de 2008. "Naquela época, vimos como a concentração de riscos no sistema financeiro americano causou estragos no mundo todo. Hoje, corremos o risco de repetir o mesmo erro com a inteligência artificial", alertou.
O primeiro-ministro enfatizou a necessidade de redundância e investimento em capacidades nacionais de IA. "Precisamos construir nossa própria infraestrutura de IA, apoiar startups locais e estabelecer parcerias com outros países que compartilhem nossos valores", defendeu.
G7 discutirá IA, mas sem expectativa de soluções rápidas
A questão da governança da inteligência artificial estará na pauta da próxima cúpula do G7, que ocorrerá em julho no Japão. Carney confirmou que participará das discussões ao lado de líderes do setor, mas reconheceu que não se espera resoluções imediatas. "O G7 é um fórum importante para alinhar posições, mas as soluções para a dependência tecnológica exigirão ações coordenadas de longo prazo", ponderou.
Especialistas apontam que o episódio com a Anthropic pode acelerar os esforços de países como Canadá, Reino Unido e membros da União Europeia para desenvolver alternativas soberanas de IA. O Canadá já possui um ecossistema de IA robusto, com centros de pesquisa em Montreal, Toronto e Vancouver, mas ainda carece de modelos de grande escala competitivos com os das big techs americanas.
Reações do setor
A decisão dos EUA gerou reações mistas. Enquanto alguns veem a medida como protecionismo excessivo, outros a consideram necessária para evitar a proliferação de tecnologias que poderiam ser usadas para fins maliciosos. A Anthropic, por sua vez, não comentou oficialmente, mas fontes próximas indicam que a empresa está buscando alternativas para restabelecer o acesso internacional dentro das restrições impostas.
Para Carney, o caso reforça a urgência de um debate global sobre a governança da IA. "Não podemos permitir que o futuro da inteligência artificial seja decidido por algumas empresas em um único país. Precisamos de um ecossistema diversificado, resiliente e democrático", concluiu.



