O Brasil tem até esta quarta-feira para enviar comentários por escrito ao governo dos Estados Unidos sobre a investigação comercial que pode resultar na aplicação de tarifas de importação de 25% sobre parte das exportações brasileiras. Em conclusão preliminar, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) acusou o país de promover práticas desleais em seis setores que prejudicam empresas e o comércio americano. Entre os exemplos citados estão o Pix, o desmatamento ilegal, falhas no combate à corrupção e taxas relacionadas à importação de etanol.
Tarifa adicional pode elevar taxa total a 37,5%
Além da taxa de 25% referente à apuração sobre “práticas desleais” brasileiras, o USTR também sugeriu a adoção de uma tarifa adicional de 12,5% sobre parte dos produtos do país em decorrência de uma investigação relativa à importação de produtos fabricados com trabalho forçado, que atinge outros 59 países. Assim, o tarifaço sobre uma parcela das mercadorias brasileiras vendidas aos EUA pode chegar a 37,5%.
Governo brasileiro contesta conclusões
Além de empresas, associações comerciais e acadêmicos, o governo brasileiro deve contestar as conclusões da investigação por meio de uma manifestação por escrito enviada pelo Itamaraty, como já foi feito antes de o USTR recomendar a adoção de tarifas. O Palácio do Planalto considera a medida absurda, especialmente porque os EUA têm superávit comercial com o Brasil, e vem tentando negociar com Washington para que o tarifaço não seja aplicado, mas, até o momento, não houve grandes progressos.
Audiência pública marcada para julho
Após as manifestações, está prevista a realização de uma audiência pública oficial pelo USTR para debater as ações propostas, no dia 6 de julho. A investigação foi aberta pelo USTR em 15 de julho do ano passado, e o governo Trump tem até 15 de julho deste ano para definir se irá aplicar as sanções recomendadas.
Lula critica postura de Trump
No dia em que veio a público a conclusão preliminar, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que apresentou “farta documentação” comprovando que a política comercial brasileira “não discrimina, não prejudica o comércio dos EUA e nem viola normas internacionais vigentes”. A conclusão preliminar contrariou o acordo firmado na reunião entre Lula e Trump na Casa Branca de discutir durante um mês, em um grupo de trabalho, as divergências sobre as relações comerciais entre os dois países. O resultado das investigações representa uma piora na relação bilateral, que vinha progredindo desde o primeiro tarifaço, anunciado em julho do ano passado.
— Eu acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil, ele sabe disso. É por isso que eu disse que ele ainda continua agindo como imperador. Nós estávamos fazendo acordo. O Mauro Vieira e o meu ministro do Comércio estão tratando com o ministro do Comércio dele. Nós estamos negociando — disse Lula em declaração à imprensa após o encerramento da cúpula do G7, na França.
Classificação de facções como terroristas agrava tensão
Além da ameaça de novas taxas, os EUA decidiram classificar o Comando Vermelho e o PCC como terroristas. O governo brasileiro tem associado a nova deterioração na relação aos movimentos da família Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), concorrente de Lula na disputa pelo Palácio do Planalto nas eleições deste ano, se encontrou com Trump no final de maio e pediu, segundo ele, o enquadramento das facções criminosas como terroristas. Pesquisas também apontam que a população associa as medidas de Trump contra o Brasil à família Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro participará de audiência
Flávio se inscreveu para participar da audiência pública sobre a investigação de “práticas desleais” e, segundo aliados, vai pedir para que o tarifaço não vá adiante. Os representantes do governo Lula, no entanto, não irão participar; apenas a Embaixada do Brasil em Washington vai acompanhar. No entendimento do governo, esse espaço é reservado para empresas e para a sociedade civil.
Após o anúncio da participação de Flávio, o Itamaraty publicou nas redes sociais que “os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história”.
“O Brasil sabe que o tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na justiça brasileira. As audiências públicas da Seção 301 nos Estados Unidos são espaço de atuação do setor privado e da sociedade civil. Outros importantes parceiros comerciais dos Estados Unidos, como China e União Europeia, tampouco enviam representantes às audiências públicas. O governo brasileiro tem participado ativamente nessa investigação pelos canais diretos de interlocução entre governos, desde sua abertura em 15 de julho de 2025”, disse o Itamaraty.



