Ana Nery, especialista em Gênero e Inclusão da Plan International Brasil, defende que a participação dos meninos é fundamental para avançar na equidade de gênero e na prevenção de violências. Em entrevista, ela argumenta que atuar apenas com meninas, embora necessário, não transforma as desigualdades estruturais que são produzidas nas relações e reforçadas socialmente desde cedo.
Meninos aprendem cedo o que é 'ser homem'
Segundo Ana Nery, os meninos são socializados, ainda na infância, com expectativas rígidas sobre a masculinidade, associadas a força, controle emocional, dominação e rejeição ao cuidado. Essas ideias são reforçadas por instituições como escolas, religiões, partidos políticos e mídias, impactando a forma como crianças e adolescentes se relacionam consigo mesmos e com os outros.
“Quando os meninos entram na conversa sobre equidade de gênero, o foco deixa de ser apenas a proteção das meninas e passa a incidir sobre as normas relacionais que produzem a desigualdade”, explica a especialista.
Por que trabalhar só com meninas não resolve?
Ana Nery afirma que as desigualdades e violências de gênero não são produzidas apenas pela exclusão das meninas, mas por normas relacionais que organizam o que se espera de todas as pessoas. Essas normas sustentam hierarquias de gênero e raça e se relacionam à reprodução de violências simbólicas, psicológicas, físicas e sexuais.
“Atuar apenas com meninas, embora fundamental para fortalecer seus direitos, autonomia e autoproteção, não resolve por si só o problema de forma estrutural, porque desloca somente para elas a responsabilidade pela mudança”, destaca.
Ela ressalta que incluir meninos e homens no debate é uma estratégia central de prevenção primária da violência e de promoção da equidade de gênero. Ao criar espaços educativos para reflexão crítica sobre masculinidades, emoções, privilégios e corresponsabilidade, contribui-se tanto para a redução das violências quanto para o bem-estar dos próprios meninos, que também sofrem com as pressões das normas rígidas de gênero.
O que muda quando os meninos entram na conversa?
Quando os meninos participam do debate, o foco deixa de ser apenas a proteção das meninas e passa a incidir sobre as normas relacionais que produzem a desigualdade. Isso permite tornar visíveis os processos de socialização de todas as pessoas e deslocar a violência do campo do “desvio individual” para o das estruturas sociais.
Na prática, todos são convidados à corresponsabilidade pelo cuidado, respeito e prevenção das violências. Isso contribui para diminuir práticas como o controle sobre o corpo das meninas, a misoginia, a homofobia e a violência entre pares. Meninos e homens também se beneficiam, com maior liberdade emocional, relações mais saudáveis e menor adesão a comportamentos de risco.
Como os meninos podem ser aliados das meninas?
Ana Nery lista ações concretas para que meninos atuem como aliados: questionar normas de masculinidade rígidas, assumir corresponsabilidade nas relações, intervir diante de violências e desigualdades, valorizar o cuidado, a empatia e a escuta, apoiar a liderança e os direitos das meninas, e estudar e ouvir meninas e mulheres como referência.
“Ser aliado também significa apoiar o protagonismo das meninas, respeitar suas vozes e reconhecer privilégios, usando sua posição para ampliar espaços de justiça”, afirma. No entanto, ela alerta que essas estratégias só são eficazes em um ambiente seguro e com oportunidades para discussão ampla sobre gênero e sexualidade, que precisa deixar de ser demonizado e ser tratado como questão pública relevante.
Relações saudáveis entre meninos e meninas
Para a especialista, relações saudáveis são baseadas no respeito mútuo, reconhecimento da igualdade e consentimento. Elas rompem com hierarquias de gênero, raça e classe, e reconhecem as pessoas como sujeitos igualmente legítimos. Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, relações pautadas na igualdade reduzem comportamentos agressivos e fortalecem a autoestima e o senso de pertencimento.
“Relações saudáveis podem ser encaradas como aquelas que podem romper com hierarquias de gênero, raça, classe e reconhecem as pessoas como sujeitos igualmente legítimos, capazes de agir, decidir, sentir e ocupar espaços sem coerção ou subordinação”, conclui Ana Nery.



