Em meio a tantos cantos e músicas que ecoam nos estádios durante a Copa do Mundo, um grito inédito pode parecer incompreensível para muitos: ola blou! Não se trata de um aviso de que a tradicional ola está chegando, mas sim de uma expressão de apoio à seleção de Curaçao, uma das estreantes na competição, e em uma língua tão rara quanto a participação do país: o papiamento.
Um mosaico de línguas
Apesar de o futebol ser quase uma língua universal, em Curaçao a realidade linguística é um verdadeiro mosaico. A população convive com quatro idiomas no dia a dia:
- Papiamento – língua oficial predominante na mídia, vida familiar e instrução escolar.
- Holandês – segunda língua oficial, usada em ambientes formais e administrativos.
- Espanhol e inglês – presentes no turismo, comércio e serviços.
A doutora em Letras pela USP, Manuele Bandeira, especialista em línguas crioulas, explica que a população de Curaçao é verdadeiramente poliglota, transitando com fluidez entre os quatro idiomas. "É extremamente comum que, no cotidiano, os falantes mudem de idioma no meio de uma mesma conversa para dar ênfase ou simplesmente por saberem que o interlocutor compreende os diferentes repertórios", comenta a professora da Unilab-BA.
Origem do papiamento
O papiamento é uma língua crioula, composta prioritariamente por português e espanhol, falada em Aruba, Bonaire e Curaçao, com cerca de 350 mil falantes. Surgiu do contato intenso entre diferentes povos durante o período colonial. Dois marcos foram fundamentais:
- 1634 – a tomada da ilha pelos holandeses, transformando-a em entreposto comercial e depósito de escravizados.
- 1651 – a chegada de judeus sefarditas, muitos vindos de Recife, que falavam português e adotaram o papiamento.
O idioma se desenvolveu em contato com o holandês, espanhol, português, variedades afro-portuguesas e, mais tarde, o inglês.
Semelhanças com o português
O papiamento mantém uma forte proximidade com o português, especialmente em palavras funcionais como preposições e pronomes: di (de), ku (com), pa (para), ken (quem) e unda (onde). No vocabulário básico, encontramos bai (ir/vai), por (pode), tin (tem), ainda, semper (sempre), kachó (cachorro) e nobo (novo).
Expressões sem tradução
O papiamento possui expressões idiomáticas enraizadas na cultura local. Veja alguns provérbios populares:
- Ora bichi bini ariba bisa ku e bou ta hole stinki kere – Quando alguém em posição de autoridade diz que algo está errado, acredite.
- Jambo biew a bolbe na wea – Usado quando alguém reata um relacionamento antigo.
- Ora tamarijn ta pidi suku bo mester duna – Em um relacionamento, atenda às necessidades do parceiro.
- Mira ku wowo laga para – Observe sem interferir.
- Djente blanku no ta kurason – Aparência amigável não garante sinceridade.
Ola blou na Copa
A torcida de Curaçao embalou a seleção com a ola blou (onda azul), em referência ao azul icônico do país e à bandeira nacional. "Assim como o futebol permite que Curaçao seja vista no mundo todo, o papiamento é o veículo que simboliza e reúne tantas culturas, histórias e etnias internamente", afirma Manuele Bandeira.



