Morte de estudantes recrutados como operadores de drones expõe riscos na Rússia
Morte de estudantes recrutados como operadores de drones expõe riscos

Valery Averin, um estudante de 23 anos que cresceu em um orfanato na Sibéria, está entre os primeiros russos a morrer na guerra da Ucrânia após se alistar em uma nova campanha de recrutamento de jovens para unidades de drones. Sua mãe adotiva, Oksana Afanasyeva, disse à BBC: "Ele estudou sobre drones por três meses — e, mesmo assim, o lançaram em um ataque frontal, direto para o moedor de carne". Averin nunca havia servido ao exército antes de assinar o contrato.

Campanha de recrutamento em instituições de ensino

A campanha para incentivar estudantes de universidades, faculdades técnicas e escolas profissionalizantes a assinarem contratos com o exército começou no início de 2025, quando a Rússia buscava sustentar seu esforço de guerra pelo quinto ano de conflito. A iniciativa concentrou-se especialmente naqueles com dificuldades acadêmicas ou que cogitavam pausar os estudos. As unidades de drones foram apresentadas como uma via de atuação de elite e com tecnologia avançada.

Averin cursava o último ano na Escola Técnica Republicana de Construção da Buriácia quando foi recrutado. Em abril, ligou para a mãe adotiva avisando que seria enviado para um local "sem sinal [de telefone]" e pediu que ela não se preocupasse. Inicialmente, disse que viajara para ganhar dinheiro na Wildberries, mas a mãe descobriu que ele havia assinado um contrato militar e concluído treinamento como operador de drones. "Ele me disse: 'Nada vai acontecer comigo, vai ficar tudo bem'", lembrou. Uma semana depois, em 8 de abril, ela soube que ele morrera em um ataque de morteiro perto de Luhansk.

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Outros jovens mortos

Vladislav Gorbunov, de 18 anos, da cidade de Unecha, a 70 km da fronteira com a Ucrânia, morreu em 6 de abril, quatro meses após assinar o contrato. Ele estudava construção e manutenção ferroviária e foi enviado inicialmente para uma unidade de assalto de infantaria, antes de ser transferido para operadores de drones. Rakhim Abdullin, também de 18 anos, matriculou-se na Faculdade de Mineração de Kumertau para se qualificar como soldador, mas seus estudos não prosperaram. Em janeiro, duas semanas após completar 18 anos, assinou contrato militar para ser operador de drones, vendo isso como opção segura. "Mas, quando ele chegou lá, viu que não era nada seguro", explicou sua mãe, Elena. "Porque eles também veem as tropas de assalto e estão bem na linha de frente." Em 13 de março, ele já estava morto.

Números de mortos na guerra

Os três ex-estudantes estão entre os 230.407 soldados e oficiais russos cujas mortes foram confirmadas pela BBC, com base em análise de cemitérios, memoriais, registros governamentais e obituários. Especialistas militares estimam que isso reflita entre 45% e 55% do total de óbitos, situando o número real entre 417 mil e 509,5 mil. O GCHQ, agência de inteligência do Reino Unido, afirmou em maio que o número chegava a quase 500 mil. As perdas ucranianas também são elevadas: o presidente Volodymyr Zelensky informou, em fevereiro de 2026, 55 mil mortes, além de desaparecidos. Um site ucraniano anônimo sugere até 213 mil mortes militares, e a inteligência militar holandesa estima cerca de 500 mil mortos, feridos e desaparecidos entre ucranianos.

Promessas e realidade do programa de drones

Repor as baixas tornou-se fundamental para a Rússia. As autoridades apresentaram o programa como voluntário, moderno e seguro. Aos estudantes, é oferecido um contrato especial de um ano para servir nas "tropas de sistemas não tripulados". O ministro da Defesa, Andrei Belousov, afirmou em novembro de 2025 que a força buscaria atrair pessoas com menos de 35 anos, mais receptivas a "novas tecnologias". Em semanas, reuniões de recrutamento ocorreram em instituições de ensino por toda a Rússia. A BBC News Rússia encontrou evidências em pelo menos 95 universidades e faculdades até o final de fevereiro; em abril, a publicação estudantil Groza estimou quase 270 instituições que promoveram a assinatura de contratos.

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A proposta inclui alistamento de um ano (com treinamento), pagamentos elevados e habilidades técnicas. Em Moscou, panfletos prometem pelo menos cinco milhões de rublos (R$ 296 mil) pelo ano de serviço. No entanto, advogados e ativistas alertam que desde o decreto de mobilização parcial de Putin, em setembro de 2022, os contratos militares foram prorrogados até o fim da mobilização, tornando improvável a saída após 12 meses.

Riscos para operadores de drones

O Ministério da Defesa argumenta que a função é mais segura e mantém o militar longe da linha de frente. Contudo, operadores de drones tornaram-se alvos de alto valor. Pelo menos 920 operadores de drones russos morreram desde fevereiro de 2022, segundo análise da BBC News Rússia, Mediazona e voluntários. As baixas confirmadas já se equiparam às de unidades de artilharia, uma das especialidades mais expostas. Além disso, estudantes podem nem chegar às unidades de drones, pois cabe ao Ministério da Defesa decidir a adequação; uma reprovação pode resultar em transferência para outra divisão.

Pressão sobre estudantes

Somando-se aos incentivos financeiros e apelos patrióticos, há casos de pressão para alistamento. A BBC encontrou indícios de que estudantes eram alvo se estivessem prestes a ser expulsos ou cogitassem licença acadêmica. Em uma faculdade de Novosibirsk, um diretor foi gravado chamando de covardes os alunos que recusavam assinar contratos. Há relatos de metas de recrutamento: um ex-assessor do reitor da Universidade Federal do Extremo Oriente afirmou que a instituição recebeu cota para enviar 32 estudantes em fevereiro. A universidade negou, classificando a informação como falsa.

Impacto nas instituições civis

O foco nos estudantes demonstra como a guerra depende cada vez mais de instituições civis, de universidades a escolas profissionalizantes. A promessa é de dinheiro, status e uma trajetória curta e especializada. Contudo, a morte de Valery Averin escancara a fragilidade dessas promessas. Sua mãe adotiva acredita que ele não atuou na função protegida que esperava: "Ele dizia que nada aconteceria com ele", reforça ela.