A expressão preconceituosa e generalista que chamava todos os asiáticos de japoneses, comum nos anos 1960, também se aplicava ao futebol: todos eram vistos como iguais e frágeis dentro de campo. Essa visão mudou radicalmente a partir de 1993, com a profissionalização da J-League, e um ano antes, com a chegada de Zico ao país. O ex-craque brasileiro, apelidado de Samurai de Quintino, ajudou a transformar a maneira como o Japão enxergava e praticava o esporte.
Evolução constante desde 1998
Desde 1998, o Japão está presente em todas as Copas do Mundo, e em metade delas avançou além da fase de grupos. Nas duas últimas edições, o desempenho foi crescendo: em 2022, venceu duas campeãs mundiais (Espanha e Alemanha) e só caiu nos pênaltis para a Croácia, após dominar a partida. No ciclo atual, goleou a Alemanha por 4 a 1 em Wolfsburg em 2023 e, em outubro passado, virou um placar de 2 a 0 contra o Brasil de Ancelotti, vencendo por 4 a 2. Foi a primeira vitória da seleção principal japonesa sobre o Brasil – em 1996, uma equipe sub-23 havia vencido por 1 a 0 na Olimpíada de Atlanta.
Planejamento de longo prazo
A federação japonesa estabeleceu a meta de ser campeã mundial até 2050. O técnico Hajime Moryasu, 57 anos, ex-volante da seleção, está no comando desde 2018 e destaca que o “segredo” não é apenas a organização, mas o trabalho coletivo aliado ao florescimento das individualidades. “Os jogadores no Japão aprenderam a atuar para eles mesmos, mas seguem tendo a consciência de um sentido coletivo e cultural de sempre ajudar os outros, e isso nos ajuda dentro de campo”, afirmou Moryasu. Em 2022, 19 dos 26 convocados estreavam em Copas, o que pesou. Agora, com mais experiência, o time está mais maduro.
Sistema tático versátil
O Japão utiliza o 3-4-2-1 como sistema principal, que antes era uma alternativa para viradas contra Alemanha e Espanha em 2022. Contra o Brasil, em 2025, a equipe mudou para uma linha de quatro defensiva durante a virada. Essa capacidade de alterar o ritmo e o rumo do jogo é uma das marcas do time. O goleiro Zion Suzuki, filho de pai ganês e mãe japonesa, nascido em Newark (EUA), é um dos destaques, com ótimo tempo de reação e bom jogo com os pés. A defesa conta com Itakura (Ajax), Hiroki Ito (Bayern de Munique) e Watanabe (Feyenoord), todos com experiência europeia.
Meio-campo e ataque qualificados
No meio, a dupla de volantes Tanaka (Leeds) e Sano (Mainz) é eficiente na marcação, enquanto Kamada (Crystal Palace) é a cabeça pensante. Pela direita, Doan (Eintracht Frankfurt) é habilidoso e decisivo, e pela esquerda, Maeda (Celtic) se destaca pelo pressing e velocidade. No ataque, Ueda (Feyenoord), fã de Ronaldinho Gaúcho e Eto'o, é o artilheiro, com 18 gols em 42 jogos pela seleção. O time perdeu jogadores importantes como Minamino, Mitoma e Kubo por lesão, mas manteve o nível.
Estatísticas e favoritismo
O Brasil leva vantagem em alguns números: finaliza mais, dribla mais (embora com baixo aproveitamento), tem maior posse de bola (54% contra 51%) e ganha mais duelos aéreos. O Japão, porém, cruza melhor na área e sofreu menos finalizações. Ambos marcaram sete gols até agora, mas o Brasil sofreu apenas um, contra três do Japão. “Brasil é favorito. Pelo que tem evoluído. E pelo que deixou de jogar o desfalcado Japão. Em números, dou 60% de chances ao Brasil”, analisa o jornalista. Mas, como o próprio autor alerta, é preciso cautela: ele está na zona de rebaixamento do bolão do Estadão.



