A oferta global de diesel enfrenta ameaças crescentes devido a conflitos geopolíticos e à decisão da Rússia de vetar exportações do combustível, alertam analistas do setor. A combinação de sanções ocidentais, tensões no Oriente Médio e a interrupção de fluxos russos pode levar a um aperto significativo no mercado, com impactos sobre preços e cadeias logísticas em todo o mundo.
Veto russo e sanções apertam mercado
A Rússia, um dos maiores exportadores mundiais de diesel, impôs uma proibição temporária às exportações do combustível a partir de 1º de agosto de 2026, visando conter a alta dos preços domésticos e garantir abastecimento interno. A medida, anunciada pelo governo russo, interrompeu cerca de 700 mil barris por dia de exportações, equivalentes a aproximadamente 10% do comércio global de diesel. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a Rússia respondeu por 14% das exportações mundiais de diesel em 2025.
Conflitos no Oriente Médio agravam cenário
Paralelamente, os conflitos no Oriente Médio, especialmente a guerra entre Israel e o Hamas e os ataques houthis no Mar Vermelho, têm elevado os custos de frete e seguro para navios-tanque que transportam diesel. O redirecionamento de rotas pelo Cabo da Boa Esperança, evitando o Canal de Suez, aumentou em até 15 dias o tempo de viagem entre o Golfo Pérsico e a Europa. A produção de diesel em refinarias europeias também foi afetada por interrupções não programadas, reduzindo a oferta regional.
Impacto nos preços e na inflação global
O aperto na oferta já se reflete nos preços. O diesel com baixo teor de enxofre negociado em Roterdã subiu 12% nas últimas duas semanas, atingindo US$ 95 por barril, o maior nível desde outubro de 2024. Analistas do banco Goldman Sachs estimam que o mercado global de diesel enfrenta um déficit de 300 mil barris por dia no terceiro trimestre de 2026. “A combinação de fatores geopolíticos e a decisão russa criam um cenário de risco de escassez que não víamos desde a crise energética de 2022”, afirmou John Smith, analista sênior da consultoria Energy Aspects.
Europa e América Latina na linha de frente
A Europa, que importa cerca de 40% de seu diesel da Rússia, é uma das regiões mais expostas. Países como Alemanha, França e Polônia já buscam fontes alternativas, como Estados Unidos, Arábia Saudita e Índia. No entanto, a capacidade de refino global está limitada, com margens de refino já elevadas. Na América Latina, o Brasil, que importa diesel para complementar a produção da Petrobras, também sente os efeitos. A estatal brasileira elevou os preços do diesel nas refinarias em 8% na última semana, repassando parte da alta internacional.
Perspectivas e riscos de recessão
Especialistas alertam que o prolongamento do veto russo e a escalada dos conflitos podem levar a uma crise de abastecimento no quarto trimestre, período de maior demanda por diesel para aquecimento no hemisfério norte. “O mercado de diesel está em um ponto de inflexão. Se a Rússia não reverter a proibição em breve, veremos racionamento e impactos severos na economia global, especialmente no transporte de cargas e na agricultura”, disse Maria Silva, diretora de pesquisa do Centro de Estudos de Energia da Universidade de Oxford. A AIE projeta que o consumo global de diesel cresça 1,5% em 2026, impulsionado pela recuperação econômica, mas a oferta pode não acompanhar a demanda.



