Bangladesh: a maior torcida do Brasil fora de casa
Bangladesh: a maior torcida do Brasil fora de casa

Casas pintadas de verde e amarelo, bandeiras e camisas da Seleção Brasileira compõem a paisagem das ruas em preparação para o confronto entre Brasil e Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo. A expectativa é de que aglomerações tomem as vias antes da partida do próximo domingo (5). Não se engane: esse é o cenário de Daca, capital de Bangladesh, e não de alguma cidade brasileira.

O país de 174 milhões de habitantes no sul da Ásia abriga, possivelmente, a maior torcida brasileira fora do território nacional. “Meu cálculo é que haja entre 80 milhões e 100 milhões de torcedores da Seleção Brasileira aqui”, afirma o embaixador do Brasil em Bangladesh, Paulo Dias Feres.

Paixão verde e amarela em solo asiático

Desde a estreia da equipe na Copa do Mundo, viralizam nas redes sociais vídeos de multidões bangladenses delirando a cada gol do time comandado por Carlo Ancelotti. Todos aparecem vestidos com camisas verde e amarelas compradas em uma das várias lojas da Velha Daca, região central da capital, onde réplicas são expostas ao lado de bandeiras do Brasil. Tudo isso em um país cujo esporte nacional é o críquete. “Entre um ciclo e outro de Copa do Mundo, é como se eles hibernassem. Quando a Copa volta, emergem. Aquela coisa latente se torna ativa”, diz Feres.

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Raízes históricas: independência e Pelé

O amor dos bangladenses pela amarelinha se mistura à própria identidade nacional do país. A conquista da independência de Bangladesh, em 1971, após a guerra contra o então Paquistão Ocidental, que matou cerca de 3 milhões de civis, foi impactada pelo tricampeonato mundial conquistado pelo Brasil no México, em 1970. Sheikh Mujibur Rahman, principal liderança política do processo de independência, era fã de futebol e, em especial, do maior nome dos três primeiros títulos da Seleção em Copas. “Ele mandou traduzir para o bangla uma biografia de Pelé escrita por Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues. Esse livro virou leitura obrigatória nas escolas de Bangladesh”, explica Feres.

O sentimento acabou reforçado pela ascensão de novos craques brasileiros. Zico e Sócrates, na década de 1980; Romário, nos anos 1990; Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, a partir dos anos 2000; e, mais tarde, Neymar ajudaram a renovar, geração após geração, a identificação com o Brasil.

Futebol como fenômeno social

Para se ter ideia, não há uma universidade sequer em Bangladesh que não esteja transmitindo os jogos da Seleção Brasileira durante a Copa deste ano. As partidas, disputadas no fim da madrugada no horário local, também são exibidas em telões instalados pelo governo nas ruas. Parte da adoração pelo time brasileiro também nasce da falta de opções locais. Enquanto o futebol de clubes no país ainda é amador, a seleção de Bangladesh ocupa a 181ª posição no ranking da Fifa, entre 211 países. O melhor resultado da equipe nas eliminatórias asiáticas para a Copa foi um empate com o Líbano.

Soft power brasileiro subexplorado

A relação de Bangladesh com a Seleção Brasileira talvez seja o exemplo mais emblemático do soft power — a capacidade de influenciar outros países não pela coerção, mas pela atração — do futebol brasileiro. Na avaliação de Feres, isso deveria ser melhor aproveitado. “É preciso pensar nisso em termos de Bangladesh, mas também do sul da Ásia”, afirma.

Embora Bangladesh seja o caso mais claro — e, talvez, o mais apaixonado — da ligação de outros países com o futebol brasileiro, lugares como Índia, Líbano e Paquistão também reúnem parcelas relevantes de torcedores. “A impressão que tenho é que os paquistaneses, por exemplo, estão tentando emular os torcedores de Bangladesh, torcer da mesma maneira ou até de forma mais apaixonada, mais fanática”, conta Feres.

Para ele, a CBF, responsável pela administração da Seleção Brasileira, poderia levar à região iniciativas como jogos de exibição, excursões de jogadores ou até a abertura de lojas. O crescimento da classe média no país — hoje estimada em cerca de 35 milhões de pessoas — abre espaço para uma demanda maior por bens e serviços ligados ao futebol.

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Do lado da diplomacia, há iniciativas como um memorando de entendimento sobre esportes com o Brasil, que aguarda assinatura do governo de Bangladesh. Mas a intenção é aprofundar ainda mais essa relação. Hoje, há uma tentativa de facilitar o comércio com o país, especialmente no setor agropecuário, e a proximidade gerada pelo futebol pode ajudar nesse processo. O InfoMoney procurou a CBF para saber se há iniciativas específicas voltadas ao mercado de Bangladesh, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Rivalidade com a Argentina também presente

Embora a torcida brasileira seja maioria no país, sua maior rival, a Argentina, também reúne muitos admiradores por lá. “A admiração pela Argentina veio, sobretudo, de dois jogadores: Maradona e Messi. Quem nasceu em 2002, hoje com 24 anos, não viu a última Copa que o Brasil ganhou, mas viu Messi brilhar nos últimos 20 anos”, afirma Feres. Ele avalia, no entanto, que, enquanto a identificação com a Argentina é mobilizada em torno de seus craques, a ligação com o Brasil está “entranhada” na população.

Não é incomum que a rivalidade saudável escale para a violência. Feres relata um jogo recente, em um campo improvisado, disputado por torcedores de cada um dos países, que terminou em briga generalizada. Em outro caso, uma pessoa com a camisa da Argentina teria passado por uma multidão de brasileiros que assistia a um dos jogos da Copa e acabou sendo lançada em um rio — sem se ferir, segundo o embaixador. “De certo modo, eles vibram mais do que nós, mas também sofrem mais do que nós. Se o Brasil perde, é uma catástrofe nacional aqui”, diz Feres.