Os dois fortes terremotos que atingiram a Venezuela nesta semana já deixaram 1.450 mortos e 3.150 feridos, segundo balanço oficial. Mães, pais, filhos, primos, tios e vizinhos aguardam nos arredores de edifícios desabados, especialmente em La Guaira e Caracas, na esperança de que equipes especializadas e maquinário pesado cheguem para remover os escombros sob os quais seus entes queridos podem estar presos.
Moradores fazem resgates por conta própria
Muitos voluntários arriscam-se a abrir caminho entre placas de concreto sem qualquer equipamento de proteção, retirando com as próprias mãos corpos que já começam a entrar em decomposição. A cena se repete em vários locais, e o apelo é o mesmo: pedem maior presença do Estado. Após os terremotos na quarta-feira (26), centenas de edifícios desabaram e milhares de pessoas ficaram presas. Moradores denunciam resposta insuficiente das autoridades, crescendo a frustração e indignação, conforme relataram enviados da BBC.
"Estamos todos bastante frustrados porque o governo não oferece o que deveria: uma ajuda séria", disse a moradora de Caracas Zaira Castro ao correspondente Will Grant. Em La Guaira, Carlos Eduardo, de 31 anos, está preso sob os escombros. Seus familiares o ouvem, mas não têm como resgatá-lo. "É isso. Estamos aqui esperando ajuda, esperando para ver se conseguimos tirá-lo com vida", disse seu primo à BBC News Mundo.
Governo promete esforços, mas população critica
A presidente em exercício, Delcy Rodríguez, afirmou que os esforços são feitos "sem descanso" e que "o resgate das pessoas que estão vivas é nossa prioridade". No entanto, muitos venezuelanos manifestaram descontentamento vaiando Rodríguez durante visitas às áreas afetadas. "Eles estão fazendo campanha em meio a uma tragédia! O governo não faz nada pelas pessoas", gritou uma mulher em Chacao.
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da presidente, afirmou neste domingo que o país vive "horas críticas" para salvar vidas. Ao todo, 12.721 pessoas foram afetadas e 774 edifícios danificados ou desabados. Ele classificou os terremotos como "a mais brutal catástrofe natural que nosso país sofreu em sua história". No sábado, ele informou que 21 delegações internacionais foram mobilizadas, totalizando 2.242 socorristas e 96 equipes com cães farejadores, além de mais de 30 mil pessoas entre militares, policiais, médicos e psicólogos prestando assistência.
Sobreviventes ainda podem ser encontrados
Mais de 72 horas após os terremotos, as esperanças de encontrar sobreviventes diminuem, segundo especialistas. O acesso à água e a falta de atendimento médico são os principais fatores de risco. Ainda assim, o paramédico Steven Salazar Vásquez, que conversou com a BBC durante um voo humanitário, afirmou que "ainda tem esperança" porque muitos edifícios altos desabaram apenas parcialmente, podendo criar o chamado "triângulo da vida".
Em Caraballeda, Mileidy Romero, que participava das operações de resgate, disse à AP: "Há um monte de corpos ali desde ontem à noite. Bebês recém-nascidos. Às 20h [de sábado] havia pessoas vivas lá embaixo, e ninguém se preocupou em resgatá-las." Um bombeiro que pediu anonimato afirmou: "Há edifícios onde não foi removida sequer uma única pedra. Não há mãos suficientes. E é muito, muito provável que ainda haja pessoas presas."
Infraestrutura frágil e crise política agravam tragédia
A crise política que afeta a Venezuela nos últimos anos explica em parte a vulnerabilidade da infraestrutura e a capacidade de resposta, alertam especialistas. Os feridos são atendidos em instalações médicas improvisadas, e os centros de saúde que continuam funcionando estão sobrecarregados. Profissionais disseram à BBC que, mesmo antes do desastre, já era difícil atender os pacientes. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, pediu que moradores deixem casas danificadas devido ao risco de desabamento e vazamentos de gás, mas a falta de fiscalização foi relatada por diversos meios de comunicação.



