O Peru encerrou as votações do segundo turno da eleição presidencial neste domingo. Com 93,9% das urnas apuradas, o deputado de esquerda Roberto Sánchez assumiu a dianteira da corrida presidencial, superando a conservadora Keiko Fujimori. Sánchez registra 50,008% dos votos, enquanto Fujimori aparece com 49,992%.
Virada na apuração
De acordo com a contagem oficial do órgão eleitoral peruano, após várias horas com a apuração indicando a vitória da candidata conservadora, o deputado de esquerda conseguiu virar o resultado. A candidata conservadora era apontada como favorita pelas pesquisas de boca de urna, mas já se esperava que Sánchez crescesse no final, já que ele é forte nas zonas eleitorais rurais, as últimas a serem contabilizadas.
Devido à diferença mínima, o resultado da eleição permanece indefinido. Keiko, filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, foi a primeira colocada no primeiro turno, com 17,2% dos votos válidos. Sánchez conquistou 12% dos votos válidos na primeira votação.
Jornada eleitoral tranquila
As seções eleitorais foram fechadas às 17h locais (19h no horário de Brasília), após uma jornada sem maiores incidentes, ao contrário do caótico primeiro turno, marcado por falhas técnicas e denúncias de fraude.
Primeiro turno fragmentado
O país foi às urnas em meio a um cenário político fragmentado, com um recorde de candidatos à presidência, 35 ao todo. Lucas Berti, cientista político e pesquisador sobre o Peru no Observatório Político Sul-Americano, afirma que o que aconteceu nessas eleições não vem de um "vácuo". "É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar", afirmou.
Nove presidentes em dez anos
O Peru contabilizou nove presidentes em dez anos. Para se ter ideia, os mandatos presidenciais no Peru são de cinco anos. Ou seja, em uma estabilidade democrática, o país teria apenas dois presidentes neste mesmo período. Porém, a realidade foi outra e alguns líderes não duraram nem cinco dias no cargo.
"Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu", diz Berti.
Além disso, vale destacar o artigo 113 da Constituição peruana, que afirma que um presidente pode ser derrubado por "incapacidade moral ou física permanente" — e quem avalia esse diagnóstico são os parlamentares. Então, por exemplo, se o Congresso não gosta de uma lei que o presidente tenta passar, eles podem acionar esse artigo, votar e, em menos de 24 horas, derrubar um presidente que foi eleito pela maioria da população.
Para Berti, essa facilidade do processo demonstra a fragilidade institucional em jogo no Peru. De acordo com ele, nos últimos anos, a coalizão fujimorista, de maioria absoluta no Congresso, vem articulando poderes, seja no Legislativo, nos tribunais ou no sistema judiciário.
Desde 2008, a filha de Alberto Fujimori lidera essa corrente fujimorista ao fundar o partido Fuerza Popular e tenta chegar ao Poder Executivo no Peru. Só que isso não acontece, explica Berti. "Keiko perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno, por margens muito apertadas. E agora nessa eleição, em 2026, passa para o segundo turno com uma margem maior de votos. Alguns institutos dão vantagem para Keiko, outros para o Sánchez. O que indica uma coisa: a eleição será difícil e o resultado ainda está em aberto", diz Berti.
Democracia em crise: 'desconfiança crônica'
A consequência dessa queda de braço entre Executivo e Legislativo no país resultou não só em uma profunda crise política, mas também na forma como a população enxerga a democracia. "A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos 10 anos. E a desconfiança no Congresso passa de 90%, especialmente durante o processo que iria resultar na queda da ex-presidente Dina Boluarte, em 2025", explica Berti.
Os dados mais recentes da pesquisa do Latinobarómetro, que mede o nível de democracia nos países da América Latina, apontam que o Peru enfrenta um dos níveis mais baixos de confiança nas instituições se comparado a outros países da América Latina. Há o que pode ser classificado como uma "desconfiança crônica".
De acordo com os dados, 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso; e apenas 10% se dizem satisfeitos com a democracia. Além disso, a pesquisa também notou outro sentimento perigoso: a indiferença sobre a política ou ao tipo de regime de governo.
"Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru e são partidos chamados de 'pouco institucionalizados'. São partidos que não têm raízes efetivas em uma sociedade, que não é um partido que entra para a disputa durante 20, 40 anos. Mas sim legendas que surgem e somem, assim como também não há uma fidelidade dos candidatos aos partidos, que trocam de coalizão também com facilidade", explica Berti.
Todo esse cenário reforça no eleitor a lógica de que os candidatos chegam muitas vezes a uma eleição sem base sólida ou sem um partido conhecido. Isso acaba gerando uma leitura de desconfiança e, muitas vezes, um descrédito e temor da facilidade com que essas pessoas eleitas podem cair.



