A perspectiva de oficialização de negociações para um acordo entre Mercosul e Japão na cúpula do bloco latino-americano em Assunção, nesta quinta-feira, merece atenção por razões que vão além da agenda comercial. Brasil e Japão mantêm relações diplomáticas há 130 anos, mas o fluxo comercial é modesto para economias desse porte e com tamanha complementaridade. A redução de barreiras pode ampliar as exportações de alimentos, facilitar o acesso da carne bovina ao exigente mercado japonês e estimular novos investimentos. Mas limitar a discussão a tarifas ou à balança comercial seria perder de vista o que realmente está em jogo.
Diversificação de fornecedores e parcerias estratégicas
O Japão procura diversificar fornecedores de alimentos, energia e minerais críticos, reduzir vulnerabilidades em suas cadeias produtivas e consolidar novas parcerias no Indo-Pacífico e além dele. O Brasil busca ampliar mercados, atrair capital, incorporar tecnologia e reduzir sua dependência de poucos destinos para suas exportações. A convergência entre essas estratégias explica por que a negociação ganha relevância justamente agora.
Complementaridade em setores de ponta
Ao lado da abertura de mercados aparecem bioenergia, hidrogênio de baixo carbono, minerais estratégicos, inteligência artificial, digitalização e cadeias industriais de maior valor agregado. Nessas áreas, Brasil e Japão oferecem ativos complementares. Um dispõe de abundância de recursos naturais, matriz energética limpa e escala produtiva. O outro reúne capital, tecnologia, sofisticação industrial e experiência em inovação.
Efeitos de longo prazo e ambiente de negócios
Os efeitos mais duradouros de uma parceria dessa natureza tendem a surgir gradualmente. Empresas não investem apenas porque tarifas caíram, mas quando encontram regras previsíveis, ambiente de negócios confiável e perspectivas de longo prazo. A partir daí, as cadeias produtivas se aproximam, a tecnologia circula com mais intensidade, fornecedores locais se qualificam e a produtividade cresce.
Fragmentação global e diversificação de riscos
O uso crescente do comércio como instrumento de pressão política e a fragmentação das cadeias globais levam muitos países a diversificar relações econômicas para reduzir riscos. Para economias de porte médio, ampliar o número de parceiros confiáveis tornou-se também uma forma de preservar margem de manobra. A aproximação com o Japão insere o Brasil nessa lógica sem exigir alinhamentos automáticos nem escolhas excludentes.
Desafios domésticos e reformas necessárias
Longe de dispensar o Brasil de suas lições de casa, isso exige mais empenho. Um acordo pode criar oportunidades, mas não elimina o custo Brasil, a insegurança regulatória, a burocracia, as deficiências logísticas ou a baixa competitividade de diversos setores. Nem substitui reformas capazes de tornar o ambiente econômico mais aberto e previsível. Sem elas, parte do potencial dessa aproximação permanecerá congelado no papel.
Entusiasmo sereno e direção estratégica
As eventuais negociações entre Mercosul e Japão devem, portanto, ser recebidas com entusiasmo sereno. Tratados como este, se vierem, não transformarão a economia brasileira por si sós. Ainda assim, apontam uma direção valiosa: a de um país que busca prosperar por meio da integração, da inovação e da produtividade, aproximando-se das economias mais sofisticadas do mundo em vez de se resignar ao conforto estéril do isolamento.



