Em 1883, a erupção do vulcão Krakatoa, na Indonésia, matou mais de 36 mil pessoas e destruiu 165 vilarejos em menos de 48 horas. Considerada a segunda erupção mais letal da história, o evento também produziu o som mais alto já registrado, ouvido a milhares de quilômetros de distância, e lançou cinzas que reduziram as temperaturas globais por anos.
O despertar do Krakatoa
Os primeiros sinais da tragédia foram observados em maio de 1883, segundo os Centros Nacionais de Informação Ambiental dos Estados Unidos (NCEI). O comandante de um navio de guerra alemão avistou nuvens de cinzas e poeira saindo do Krakatoa, que estava inativo havia cerca de 200 anos. Nos meses seguintes, outros navios, incluindo embarcações comerciais, registraram relatos semelhantes.
A explosão titânica
Em 26 de agosto de 1883, começaram as erupções. A primeira grande explosão lançou fluxos de lava, pedra-pomes e cinzas em direção ao mar, gerando uma onda gigante que avançou para o norte, matando milhares de pessoas. Em menos de uma hora, a coluna de cinzas alcançou 48 quilômetros de altura. No auge, atingiu 80 quilômetros, cobriu uma área de cerca de 777 mil quilômetros quadrados e mergulhou a região na escuridão por mais de dois dias, conforme o NCEI.
Sidney Baker, que presenciou a erupção quando menino a bordo do navio do pai, relembrou: "O ar parecia tomado por poeira, tanta que temíamos sufocar. Ficou tão escuro que não dava para enxergar a própria mão diante do rosto." Ele descreveu o barulho das explosões como "inacreditável".
Tsunamis devastadores
Simon Winchester, autor do livro Krakatoa: o dia em que o mundo explodiu, disse que houve uma série de explosões em 27 de agosto antes da "explosão titânica" das 10h02. Segundo o NCEI, ela foi ouvida na Austrália e na ilha Maurício, a mais de 4,6 mil quilômetros de distância. "Toda a ilha, cerca de 25 quilômetros cúbicos de rocha, praticamente se vaporizou", afirmou Winchester. "Por alguns segundos, abriu-se um enorme vazio no mar, que logo foi preenchido por trilhões de toneladas de água, vaporizando instantaneamente e provocando tsunamis gigantescos."
Esses tsunamis foram a parte mais letal, responsáveis por 34 mil das 36 mil mortes. Baker contou que a cidade de Anjer foi completamente submersa: "O hotel onde meu pai se hospedou ficou tão coberto pela água que era possível passar com o navio por cima dele e lançar a âncora pela chaminé."
Impactos globais e legado científico
As cinzas se espalharam pelo mundo, criando um halo ao redor do Sol e da Lua, reduzindo a temperatura média global em até 0,5 °C, segundo o NCEI. O clima levou cinco anos para se normalizar. Os entardeceres avermelhados inspiraram pinturas como O Grito, de Edvard Munch.
Antes da erupção, ninguém conhecia as correntes de jato (jet streams). "Foi o primeiro acontecimento que fez a humanidade com consciência científica perceber que um evento podia afetar o planeta inteiro", disse Simon Winchester. "Ideias como aquecimento global e elevação do nível do mar têm origem nessa percepção de que tudo está conectado."
O Anak Krakatau hoje
Em julho de 2023, o vulcão Anak Krakatau ("Filho do Krakatoa") entrou em erupção duas vezes, lançando colunas de cinzas de até 250 metros de altura. A agência geológica da Indonésia informou que não havia ameaça imediata às comunidades próximas. O Anak Krakatau surgiu em 1927 a partir da caldeira deixada pelo Krakatoa e também entrou em erupção em 2018, causando um tsunami que matou centenas de pessoas.



