As taxas dos títulos do Tesouro Direto dispararam nas últimas sessões, alcançando patamares históricos. Na segunda-feira (8), o Tesouro IPCA+ 2032 oferecia um ganho real de 8,36% ao ano, o maior já registrado para esse vencimento. Já o Tesouro Prefixado 2032 pagava 14,86% ao ano, o nível mais alto desde abril de 2025. Diante desses retornos, muitos investidores se perguntam qual título escolher.
Entendendo os títulos
No Tesouro Prefixado, a taxa de retorno é definida no momento da compra e permanece fixa até o vencimento, garantindo previsibilidade. Já o Tesouro IPCA+ combina uma taxa fixa com a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), protegendo o poder de compra. A rentabilidade final do IPCA+ só é conhecida no vencimento ou no resgate antecipado.
De acordo com Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, a escolha depende das expectativas para a inflação futura, do horizonte de investimento e da tolerância ao risco. Para quem acredita em desaceleração da inflação e queda dos juros, o Prefixado pode capturar ganhos adicionais. Já o IPCA+ é mais indicado para quem busca previsibilidade real e menor dependência de cenários econômicos específicos.
Simulação de investimento
Uma simulação com a calculadora do Tesouro Direto mostra que R$ 100 mil aplicados no Tesouro IPCA+ 2032 podem render um valor líquido de R$ 202.733,23 em 2032, considerando Imposto de Renda e taxa de custódia da B3, com rentabilidade de 12,13% ao ano. O cálculo considera inflação de 5,11% estimada pelo Boletim Focus. Já no Tesouro Prefixado 2032, os mesmos R$ 100 mil se transformam em R$ 196.666,56 líquidos, com retorno de 12,96% ao ano.
É importante notar que os vencimentos são diferentes: o IPCA+ vence em 15 de agosto de 2032 e o Prefixado em 1º de janeiro de 2032. Além disso, a inflação projetada pode variar; se for maior, o IPCA+ pode superar o Prefixado.
Inflação implícita
Para comparar os títulos, utiliza-se a inflação implícita, que é a expectativa do mercado para a inflação futura. O cálculo é: (1 + taxa do Prefixado) ÷ (1 + taxa do IPCA+) – 1. Com as taxas atuais: (1,1486 ÷ 1,0836) – 1 = 0,05998, ou cerca de 6% ao ano. Se a inflação efetiva ficar acima de 6%, o IPCA+ será mais vantajoso; abaixo disso, o Prefixado ganha.
Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, recomenda o IPCA+ para metas de médio e longo prazo, enquanto o Prefixado é mais atrativo para prazos de até três anos, desde que mantido até o vencimento. Ele alerta que a comparação direta pode ser prejudicada se esses fatores não forem considerados.
Títulos de diferentes prazos
O Tesouro Prefixado 2029 oferece retorno de 14,89%, enquanto o IPCA+ 2040 e 2050 têm ganhos reais de 7,67% e 7,36%, respectivamente. Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, explica que prazos maiores aumentam a sensibilidade às oscilações das taxas de juros, elevando a volatilidade. Investidores dispostos a conviver com isso podem travar taxas elevadas por mais tempo. Já prazos curtos evitam volatilidade, mas há risco de reinvestimento em cenário de taxas menores.
Cenário macroeconômico
A alta das taxas ocorre em meio a mudanças nas expectativas de inflação, agravadas pelo conflito no Oriente Médio, que pressiona os preços do petróleo. No Brasil, bancos como BTG Pactual e BofA preveem apenas mais um corte da Selic, enquanto XP e G5 Partners apostam em dois. O Boletim Focus elevou a projeção do IPCA para 2026 de 5,09% para 5,11% e a Selic para 13,50% ao final do ano.
Victor Furtado, head de alocação na W1 Capital, aponta que as eleições geram incerteza fiscal, impactando as taxas. A XP calcula que medidas de crédito e renda do governo Lula devem ter impacto de 1,5 ponto percentual do PIB (R$ 205 bilhões). Nos EUA, o payroll de maio superou expectativas, reforçando a perspectiva de juros altos.
Na Super Quarta (17), decisões de juros no Brasil e nos EUA devem trazer mais clareza. Até lá, as taxas devem se acomodar, segundo Furtado.



