Mulheres conquistam liderança no mercado de queijos artesanais no Brasil
Mulheres lideram mercado de queijos artesanais no Brasil

Toda vez que fecha os olhos, Thamara Leite Ferraz Junqueira lembra do sabor único do queijo preparado pela mãe. Receita secreta e autoral. “É o melhor do mundo”, sentencia ela sobre a iguaria jamais vendida ou comercializada. Relíquia de família mesmo, daquelas que, com sorte, é dada de presente para quem a visita em Cruzília, Minas Gerais.

O curioso é que Thamara ocupa o posto de responsável por um sítio com mais de 300 cabeças de vacas leiteiras, cuja produção é destinada 100% à fabricação de queijos que serão, esses sim, comercializados no Brasil. Está há dez anos na posição de comando, área em que mulheres como ela ainda são uma espécie de raridade.

Mulheres no queijo: Thamara Leite Ferraz Junqueira

Médica Veterinária, responsável técnica sanitária do Sítio do Charco.

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Essa história do queijo de autoria feminina ser um produto quase exclusivamente caseiro — como é o caso do queijo da mãe de Thamara — e de o mercado profissional ter mais homens à frente — o que torna Thamara uma exceção no meio — é explicada pela própria trajetória do alimento.

O ponto é que agora, acreditam os especialistas ouvidos por Paladar, essa desproporção de gênero começa a mudar: mais mulheres estão assumindo postos de liderança e contando uma nova história sobre o queijo no Brasil.

Ponto de partida: seu queijo tem valor de uso ou valor de troca?

Segundo as pesquisas de Sônia de Souza Mendonça Menezes, autora do trabalho Mulheres queijeiras: ajuda ou trabalho essencial na reprodução social da família, essa predominância masculina no mercado do queijo se consolidou quando o alimento deixou de ter “valor de uso para ter valor de troca”.

Enquanto era um produto para o autoconsumo e para alimentar as famílias, estava nas mãos femininas — e no saber das mulheres, passado de geração para geração. Quando a produção excedente permitiu a venda, foi agregado valor de negócio ao queijo. Foi aí que os homens se tornaram os principais produtores (ou, pelo menos, as pessoas que fechavam os negócios e assumiam os postos de liderança).

O queijo produzido por mulheres tornou-se, assim, “desconhecido, banalizado, não devidamente visualizado por setores técnicos, políticos e pela rede institucional”, escreveu Sônia em seu artigo.

A virada das mulheres ainda em curso

A vida seguiu assim, mas, de um tempo para cá, essa história do queijo predominantemente masculino nos balcões de negócio, festivais e premiações começou a mudar.

A chegada de mais mulheres como Thamara à cadeia produtiva do queijo, de ponta a ponta, é uma realidade.

“Quando eu comecei no Sítio do Charco, era a primeira entre os 15 homens da equipe responsável. Hoje, já somos cinco mulheres. Sinto que estamos conquistando espaço”, conta ela, que se formou em Medicina Veterinária e, desde pequenininha, sempre sonhou em trabalhar com vacas e sabia que o melhor destino para o leite é o queijo.

Seguindo o fio da cadeia produtiva do mercado queijeiro, o leite que Thamara coordena, no posto de responsável pela qualidade técnica, chega ao Sítio Paiolzinho, hoje liderado por Paula Nogueira, diretora-geral.

“Eu jamais sonhei em assumir a produção de queijo que foi tão importante para a minha família. Fiz faculdade de Psicologia, trabalhei na área. Mas, quando meu pai disse que iria encerrar a produção dele, senti como um chamado. E mergulhei de cabeça em estudos e especializações para chegar e conquistar um lugar nesse mundo ainda tão masculino”, conta Paula.

Estar à frente da produção de queijos do Paiolzinho — e muitas vezes ser a única mulher nas rodas de negócio — é enfrentar percalços importantes, como descrédito e assédio, alguns sutis e outros bem evidentes e perigosos.

Mulheres no queijo: Paula Nogueira

Diretora geral do sítio Paiolzinho.

“Sinto que as mulheres no mercado do queijo estão contando uma história muito bonita nos papéis de liderança, o que me dá orgulho. Mas, sim, existem dificuldades a mais”, diz Paula.

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“Talvez nenhum homem consiga ter a dimensão do que é incluir, na preparação para uma reunião ou negociação sobre o queijo — que já é desafiadora por si só —, o receio de sofrer algum assédio. Ter que planejar previamente como agir caso isso ocorra. É, de fato, um obstáculo a mais que, olha só, estamos superando.”

Elas hoje são (só) 35%

A presença de Thamara e Paula nas lideranças da cadeia produtiva do queijo acompanha a curva de crescimento da participação feminina em outras áreas do setor, é verdade. Mas também é impulsionada por pessoas como Débora Pereira.

Ela, que é diretora da SerTãoBras, Mestre Queijeira da Guilde Internationale des Fromagers e organizadora do Festival Mundial do Queijo, lançou uma campanha na última edição pleiteando “um mundo do queijo mais feminino”.

“As mulheres sempre foram as protagonistas da produção, a mão na massa do fazer queijo, e queremos que elas também ocupem os pódios, os destaques, as lideranças e as negociações”, afirma Débora, que assina o Blog Só Queijo.

Ainda é um trabalho intenso e em curso. A pedido de Paladar, a organização do Mundial do Queijo fez um levantamento, e os números de 2026 ainda evidenciam a distância entre os gêneros. Apenas 35% dos queijos inscritos para concorrer no Mundial foram produzidos por mulheres ou tinham responsáveis técnicas do gênero feminino.

Uma das iniciativas para estimular mais mulheres, conta Débora, foi a inclusão de uma premiação inédita para a melhor queijeira que produz um alimento com o leite da própria fazenda. E o prêmio recebeu o nome de Raquel Cattani, medalha de ouro da edição geral de 2024.

Aqui, inclusive, uma homenagem de sabor amargo e também um alerta. Raquel foi vítima de feminicídio quatro meses após conquistar a medalha. O marido foi preso, e as notícias deram conta de que, entre as motivações do crime, estaria o “ciúme profissional”.

“Uma tristeza, um choque e uma revolta. Tentamos transformar isso em alguma ação”, conta Débora.

Do curral ao pódio feminino no mercado do queijo

Esta reportagem de Paladar é produzida após a realização do Mundial do Queijo em homenagem a Raquel Cattani, e um laço emblemático foi identificado para dar um tom esperançoso de avanço.

Se o leite produzido por Thamara vira queijo nas mãos de Paula, foi quando esses queijos chegaram às mãos de Débora Martins que eles subiram ao pódio do Mundial.

Ela, que é proprietária da Queijaria Cave 381 e especialista em queijos brasileiros, conquistou o título de melhor queijista do último Mundial, uma espécie de sommelier de queijos.

“Foi uma prova intensa, difícil, que envolveu muito trabalho, pesquisa e dedicação. Na minha categoria, metade dos participantes era homem, mas vivenciamos um processo muito respeitoso. Receber a notícia da medalha de ouro foi uma emoção forte demais. Só a gente sabe o que precisa equilibrar entre carreira, maternidade e sonho para fazer acontecer”, conta Débora, que já tinha uma carreira consolidada como fisioterapeuta e dois filhos quando decidiu abrir mão da estabilidade para trabalhar com sua paixão pelos queijos.

“É bonito ver mais mulheres chegando e ocupando o espaço que desejam. Se, de alguma maneira, meu título inspira outra mulher, nossa, eu desconheço vitória maior.”