A cofundadora da Kalshi, Luana Lopes Lara, não prevê o futuro, mas chega perto. A gigante dos mercados preditivos, avaliada em mais de US$ 22 bilhões, tem como objetivo ser a maior exchange de derivativos do mundo. Em entrevista exclusiva ao InfoMoney durante o Web Summit no Rio de Janeiro, ela detalhou a trajetória da empresa, os desafios regulatórios e os planos de expansão, incluindo o mercado brasileiro.
Origem do negócio: do Brexit à criação de um novo mercado
Luana explicou que a ideia da Kalshi surgiu de forma orgânica, impulsionada pelo Brexit e pela primeira eleição de Donald Trump. Ambos os eventos mostraram a dificuldade de traders em apostar em teses futuras usando ações tradicionais. 'Se você acha que Trump vai ganhar, compra ações de armamentos e vende de reciclagem, mas os resultados das empresas não dependem só do governo', disse. A proposta da Kalshi é isolar a aposta na tese, permitindo comprar e vender contratos sobre eventos futuros.
Batalha regulatória nos Estados Unidos
A empresa enfrentou anos de negociações com reguladores americanos. 'Queríamos fazer do jeito certo, com instituições como Goldman Sachs', afirmou. Após três a quatro anos de conversas, a burocracia persistiu, especialmente para contratos eleitorais. 'Processamos o governo e vencemos em primeira e segunda instância. Lançamos um mês antes da eleição de 2024 e crescemos rapidamente: 2 milhões de novos usuários e US$ 2 bilhões transacionados em duas semanas', contou.
Crescimento e captação de recursos
Mesmo antes da aprovação, a Kalshi captou US$ 30 milhões na Série A. 'Investidores apostaram nos fundadores, dois recém-formados do MIT', lembrou. O maior desafio foi convencer funcionários a se juntar a uma empresa sem produto. 'Mostramos o potencial: se desse certo, seria enorme', disse. Hoje, a empresa movimenta US$ 4 bilhões por semana.
Expansão internacional e desafios
Luana destacou que a expansão para outros países, incluindo o Brasil, enfrenta questões educacionais e regulatórias. 'Muitos países estão onde os EUA estavam em 2018. Precisamos educar sobre mercados preditivos', explicou. A empresa planeja usar moedas nacionais, mas manter um pool de liquidez global. 'O time de produto resolverá a conversão cambial depois', afirmou.
Modelo de negócio e receita
Diferente de cassinos e casas de apostas, a Kalshi ganha com uma taxa menor que 1% por transação, independentemente de o usuário ganhar ou perder. 'Não barramos vencedores. Queremos que ganhadores continuem', disse. A empresa também monitora insider trading com IA e identidade verificada.
Impacto dos mercados preditivos
Luana acredita que os mercados preditivos oferecem dados mais precisos que pesquisas tradicionais. 'Na eleição de 2024, nossas odds indicavam 65% para Trump, enquanto pesquisas mostravam empate. Acertamos porque as pessoas são incentivadas financeiramente a trazer verdade', explicou. Ela vê o futuro onde qualquer opinião sobre eventos futuros terá um contrato na Kalshi, tornando o mercado preditivo maior que o de ações.
A empresa agora foca em atrair investidores institucionais e expandir para novos mercados, incluindo o Brasil. 'Estamos animados com a parceria com a XP e vamos trabalhar com o governo', concluiu.



